Pr. Adriano Oliveira
Resumo
A hipótese do multiverso constitui uma das propostas mais discutidas na cosmologia contemporânea, especialmente em conexão com modelos inflacionários, teoria das cordas e determinadas interpretações da mecânica quântica. Embora alguns físicos e filósofos considerem o multiverso uma possibilidade explicativa relevante, sua natureza permanece objeto de intenso debate quanto à testabilidade, ao estatuto ontológico e ao poder explicativo. Este artigo examina a hipótese do multiverso a partir de uma perspectiva cristã, pentecostal e assembleiana, sustentando que não há fundamento bíblico para converter a existência de múltiplos universos em doutrina teológica. Argumenta-se que a Escritura apresenta Deus como Criador transcendente e a realidade criada como dependente dele, especialmente em Gênesis 1:1, João 1:3, Colossenses 1:16–17, Hebreus 11:3 e Romanos 11:36. Dialogando com Agostinho, Tomás de Aquino, C. S. Lewis, Alvin Plantinga, Richard Swinburne, William Lane Craig, George Ellis e Roger Penrose, o estudo distingue hipótese científica, inferência filosófica e revelação teológica. Conclui-se que o multiverso pode ser objeto legítimo de investigação científica e filosófica, mas não pode substituir o Deus Criador como fundamento último da existência nem ser incorporado à teologia cristã sem evidência revelacional.
“POSTULAR UM TRILHÃO DE TRILHÕES DE OUTROS UNIVERSOS, EM VEZ DE UM DEUS PARA EXPLICAR A ORDEM DO NOSSO UNIVERSO, PARECE O CÚMULO DA IRRACIONALIDADE.”
1. INTRODUÇÃO
Poucas questões cosmológicas contemporâneas provocaram tanta imaginação quanto a possibilidade de existirem múltiplos universos. Principalmente depois de filmes temáticos serem sequencialmente lançados, atiçando a imaginação humana.
A ideia, em suas diferentes formulações, sugere que aquilo que chamamos de “universo” poderia constituir apenas uma realidade entre muitas outras. Algumas propostas imaginam universos-bolha; outras trabalham com diferentes regiões cosmológicas; outras relacionam a hipótese a interpretações da mecânica quântica ou a soluções matemáticas associadas à teoria das cordas.
O problema começa quando uma hipótese cosmológica passa a ser apresentada popularmente como se fosse um fato científico estabelecido.
George Ellis, cosmólogo e matemático sul-africano, tem sido um dos críticos mais conhecidos dessa extrapolação. Em artigo publicado na Nature, qualificou o multiverso como uma proposta cuja relação com a ciência e com a testabilidade precisa ser tratada com grande cautela. Em outro trabalho, Ellis advertiu que o debate envolve questões fundamentais sobre o próprio significado de uma teoria científica. (Nature)
A discussão, portanto, não pode ser reduzida à pergunta:
“O multiverso existe ou não?”
Antes disso, devemos perguntar:
Que tipo de proposição é a hipótese do multiverso?
É uma observação?
É uma previsão?
É uma consequência necessária de determinada teoria?
É uma inferência?
É uma interpretação?
É uma possibilidade metafísica?
Essas distinções são indispensáveis.
Do ponto de vista cristão, acrescenta-se outra pergunta:
É POSSÍVEL TRANSFORMAR A HIPÓTESE DO MULTIVERSO EM DOUTRINA CRISTÃ?
A resposta defendida neste artigo é negativa.
A Bíblia não apresenta múltiplos universos autônomos; ela apresenta um único cosmos criado, sustentado e governado por Deus
Essa hipótese do multiverso não possui fundamento revelacional suficiente para ser transformada em doutrina cristã e, quando utilizada como explicação última em lugar de Deus, envolve pressupostos metafísicos que precisam ser criticamente examinados.
Não porque a ciência tenha demonstrado definitivamente que nenhuma forma de multiverso possa existir, mas porque a Escritura não revela uma pluralidade de universos como elemento da estrutura da criação, e porque certas utilizações filosóficas do multiverso procuram empregá-lo como alternativa naturalista à explicação teísta da ordem, da contingência e do ajuste fino.
2. O PRIMEIRO PROBLEMA: CONFUNDIR POSSIBILIDADE COM REALIDADE
Uma das questões epistemológicas mais importantes do debate consiste em distinguir entre aquilo que pode ser concebido e aquilo cuja existência foi demonstrada.
A matemática pode descrever estruturas que não correspondem necessariamente a entidades físicas existentes.
A física teórica pode desenvolver modelos cuja confirmação empírica ainda não ocorreu.
A filosofia pode discutir mundos possíveis sem afirmar que esses mundos existem concretamente.
Portanto:
POSSIBILIDADE LÓGICA NÃO EQUIVALE A EXISTÊNCIA FÍSICA.
Essa distinção é particularmente importante quando tratamos do multiverso.
A Stanford Encyclopedia of Philosophyobserva que diferentes teorias do multiverso apresentam enorme poder explicativo em determinados contextos, mas também enfrentam críticas relacionadas ao poder preditivo e à testabilidade. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Isso não significa que o multiverso seja “pseudociência” por definição.
Significa que devemos evitar uma afirmação muito mais forte do que as evidências permitem, como essa aberração:
“A ciência provou que existem infinitos universos.”
Essa afirmação NÃO CORRESPONDE AO CONSENSO CIENTÍFICO.
Do mesmo modo, seria metodologicamente incorreto afirmar que a ciência demonstrou que toda e qualquer forma de multiverso é impossível.
Entretanto, existe algo que pode ser afirmado com segurança teológica:
A BÍBLIA NÃO NOS AUTORIZA A TRANSFORMAR UMA HIPÓTESE COSMOLÓGICA EM DOGMA.
3. GÊNESIS 1.1 E A ESTRUTURA BÁSICA DA COSMOVISÃO BÍBLICA
A teologia cristã começa em uma direção radicalmente diferente:
O primeiro sujeito da cosmologia bíblica não é o universo.
É Deus.
A primeira causa apresentada pela Escritura não é uma flutuação quântica.
É Deus.
O fundamento último da realidade não é uma coleção de universos.
É Deus.
A estrutura bíblica é extraordinariamente simples:
DEUS → CRIAÇÃO.
Não:
universo → acaso → outros universos → mecanismo desconhecido → existência.
A Bíblia apresenta uma ontologia na qual Deus não pertence ao conjunto das coisas criadas.
Ele é o Criador.
A criação é criatura.
Essa distinção é fundamental para a teologia cristã.
4. AGOSTINHO E A CRIAÇÃO COMO DEPENDÊNCIA DO CRIADOR
Agostinho de Hipona dedicou considerável atenção à primeira frase de Gênesis. Estudos acadêmicos sobre sua interpretação demonstram a importância que Gênesis 1:1 ocupou em sua reflexão sobre criação, tempo e realidade. (Cambridge)
Na perspectiva agostiniana, a criação não é uma realidade independente de Deus.
Ela recebe seu ser.
Agostinho rompe, nesse ponto, com concepções segundo as quais o mundo possuiria existência autônoma ou seria eterno no mesmo sentido que Deus.
Isso é importante para a discussão contemporânea.
Mesmo que alguém multiplicasse o número de universos de um para um milhão, ou de um milhão para uma quantidade inimaginável, não resolveria a questão fundamental:
Por que existe alguma realidade criada?
A multiplicação dos entes criados não transforma criatura em Criador.
NÃO IMPORTA QUANTOS UNIVERSOS EXISTAM.
SE FOREM CRIATURAS, CONTINUAM SENDO CRIATURAS.
5. TOMÁS DE AQUINO E A CAUSALIDADE DO SER
Tomás de Aquino oferece uma contribuição ainda mais profunda.
Na Summa contra Gentiles, II, 15, argumenta que tudo aquilo que possui ser por participação depende de uma causa primeira, e identifica Deus como causa do ser de todas as coisas. (Aquinas 101)
Na Summa Theologiae, I, q. 45, Aquino afirma que criar significa produzir o ser das coisas e sustenta que SOMENTE DEUS É CAUSA PRIMEIRA DA CRIAÇÃO. (Aquinas 101)
A importância disso para nossa discussão é enorme.
A questão não é apenas:
“Qual foi o primeiro evento físico?”
A questão metafísica é:
“Por que existe algo?”
Mesmo que o multiverso fosse comprovado em alguma de suas versões, ainda precisaríamos perguntar:
QUAL É A RAZÃO DE SER DO MULTIVERSO?
A hipótese pode multiplicar os mundos.
Não pode, por si mesma, explicar por que existe realidade.
E essa é uma diferença entre explicação física e explicação metafísica.
6. PLANTINGA: O CONFLITO NÃO É ENTRE CIÊNCIA E TEÍSMO
Alvin Plantinga oferece uma contribuição fundamental para essa discussão.
Em Where the Conflict Really Lies, sua tese geral é que existe um conflito apenas superficial entre ciência e religião teísta, enquanto o conflito profundo ocorre entre determinadas formas de naturalismo e a própria racionalidade das nossas faculdades cognitivas. (OUP Academic)
Plantinga não está escrevendo especificamente uma defesa do Gênesis contra o multiverso.
Sua contribuição é epistemológica.
Ele nos ajuda a compreender que “ciência” e “naturalismo” não são sinônimos.
A ciência utiliza métodos adequados para investigar a natureza. O naturalismo ontológico, por sua vez, afirma algo muito mais abrangente: que não existe realidade além da natureza.
Então meus queridos leitores, essa distinção é decisiva.
O cientista pode investigar o universo sem afirmar que Deus não existe, já a cosmologia pode estudar os primeiros estágios do cosmos sem concluir que não existe Criador.Portanto, quando alguém utiliza o multiverso para afirmar: “Não precisamos de Deus porque existem muitos universos”, já não está apenas fazendo “cosmologia”. Está fazendo filosofia céptica da religião e cometendo um GRAVE ERRO a luz das Sagradas Escrituras.
7. C. S. LEWIS E A CRÍTICA AO NATURALISMO
C. S. Lewis também é extremamente relevante. Sua crítica não era dirigida especificamente à cosmologia multiversista contemporânea, mas ao pressuposto filosófico de que a natureza constitui a totalidade da realidade.
Em Miracles, Lewis desenvolveu seu conhecido argumento contra o naturalismo, questionando a capacidade de uma visão estritamente naturalista de fornecer uma explicação satisfatória para a própria razão humana.
Estudos recentes sobre Lewis continuam destacando justamente sua crítica ao naturalismo e seu argumento da razão. (OUP Academic )
Se o multiverso for utilizado simplesmente como modelo cosmológico, a questão mesmo sendo científica, tem teor tato mente herético. E se for utilizado como argumento, os ateus vão defender erroneamente que: “O universo pode ser explicado inteiramente sem Deus”,
Estamos diante de uma afirmação metafísica.
E Lewis nos lembra que não devemos confundir uma descrição natural do funcionamento de algo com uma explicação metafísica completa da realidade.
8. SWINBURNE E A MULTIPLICAÇÃO DE UNIVERSOS
Richard Swinburne é particularmente importante porque sua crítica ao multiverso aparece explicitamente na literatura filosófica sobre cosmologia e teologia.
A Stanford Encyclopedia of Philosophyregistra sua famosa objeção:
“Postular um trilhão de trilhões de outros universos, em vez de um Deus para explicar a ordem do nosso universo, parece o cúmulo da irracionalidade.”
A formulação aparece em Is There a God? (1996). (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
O argumento de Swinburne pode ser entendido como uma aplicação do princípio de parcimônia explicativa.
Se uma realidade exige explicação, simplesmente multiplicar o número de realidades não necessariamente resolve o problema.
Imagine:
Universo A
Por que existe?
Resposta:
Porque existem Universos B, C, D…
Então surge:
Por que existe o conjunto A+B+C+D…?
A pergunta retorna.
A multiplicação não necessariamente produz uma explicação última.
9. WILLIAM LANE CRAIG E O AJUSTE FINO
William Lane Craig ocupa lugar importante na apologética cristã contemporânea, especialmente no debate sobre cosmologia, contingência e ajuste fino.
Craig argumenta que o ajuste fino das constantes e condições físicas do universo pode ser interpretado como evidência favorável ao design, embora reconheça que o multiverso constitui uma alternativa proposta pelos naturalistas. A literatura especializada também registra que Craig considera o princípio antrópico compatível com o design divino. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Aqui devemos estabelecer uma distinção.
Da mesma forma que o argumento ateístico do ajuste fino não prova matematicamente que Deus existe.
Da mesma maneira, O MULTIVERSO NÃO CONSTITUI AUTOMATICAMENTE UMA PROVA DE QUE DEUS NÃO EXISTE.
Temos, portanto, duas interpretações filosóficas possíveis de determinados dados cosmológicos:
Observe que a questão permanece filosófica e científica.
Mas, para a teologia cristã, existe uma conclusão adicional:
MESMO QUE UM MULTIVERSO FOSSE DEMONSTRADO, ISSO NÃO ELIMINARIA DEUS.
Elementar queridos leitores apaixonados por Apologética. Pois um multiverso poderia, em princípio, ser criado por Deus. O problema surge quando o multiverso é transformado em argumento metafísico contra Deus.
10. GEORGE ELLIS: UMA VOZ CIENTÍFICA DE CAUTELA
George Ellis é particularmente importante para evitar que este artigo se transforme em um simples discurso religioso contra a ciência.
Ellis não é um teólogo pentecostal tentando defender Gênesis. É um cosmólogo e matemático.
E justamente por isso sua crítica merece atenção. Em Opposing the Multiverse, Ellis argumenta que a questão envolve os próprios critérios de testabilidade e poder explicativo da ciência. (OUP Academic)
Em Nature, discutiu o chamado “multiverso não testável”, chamando atenção para a distância entre especulação teórica e comprovação empírica. (Nature)
Isso produz uma importante conclusão metodológica:
O CRISTÃO NÃO PRECISA REJEITAR O MULTIVERSO PORQUE TEM MEDO DA CIÊNCIA; PODE SIMPLESMENTE EXIGIR QUE UMA HIPÓTESE SEJA DISTINGUIDA DE UMA EVIDÊNCIA.
Essa, meus amados leitores, é uma postura intelectualmente saudável.
11. ROGER PENROSE: NEM TODO MODELO DE “MUITOS UNIVERSOS” É O MESMO
Roger Penrose também deve ser mencionado com cuidado.
Penrose desenvolveu a Cosmologia Cíclica Conforme (Conformal Cyclic Cosmology — CCC), segundo a qual o nosso universo poderia ser entendido como um “éon” relacionado a um éon anterior. Seu modelo, portanto, não deve ser simplesmente confundido com todas as versões populares do multiverso. (Springer)
Isso demonstra por que é necessário rigor terminológico.
“Multiverso” não é uma teoria única. Existem diferentes propostas cosmológicas. Algumas falam de universos-bolha. Outras de ramificações quânticas. Outras de paisagens de soluções. Outras de ciclos cosmológicos.
Misturar todas elas em uma única categoria produzem confusão. E o teólogo que pretende dialogar com a ciência precisa conhecer essas diferenças.
12. O ARGUMENTO ANTRÓPICO E A TENTATIVA DE EXPLICAR O AJUSTE FINO
O chamado princípio antrópico é frequentemente associado ao debate sobre o multiverso. Em termos simplificados, a ideia é que observamos um universo compatível com nossa existência porque, se ele não fosse compatível conosco, não estaríamos aqui para observá-lo.
Isso é logicamente correto em determinado sentido.
Mas surge uma questão: ISSO EXPLICA POR QUE O UNIVERSO POSSUI ESSAS CONDIÇÕES OU APENAS EXPLICA POR QUE NÓS OBSERVAMOS CONDIÇÕES COMPATÍVEIS COM NOSSA EXISTÊNCIA?
A distinção é importante.
A Stanford Encyclopedia of Philosophy registra que Swinburne e outros teístas consideram o princípio antrópico insuficiente ou desnecessário como explicação da aparente sintonia fina, enquanto Craig e outros apologistas consideram a discussão compatível com o argumento de design. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
NÃO EXISTE CONSENSO FILOSÓFICO.E exatamente por isso não devemos transformar uma possibilidade em doutrinação. E como não existe consenso, fiquemos com o Livro que nunca erra: A Bíblia Sagrada!
13. COLOSSENCES 1:16–17: UMA COSMOLOGIA CRISTOCÊNTRICA
A teologia assembleiana precisa acrescentar aquilo que uma análise puramente filosófica não pode oferecer: a Cristologia Pura e verdadeira.
Paulo escreve:
E acrescenta:
Observe a sequência:
I - todas as coisas foram criadas por Cristo;
II - todas as coisas foram criadas para Cristo;
III - Cristo é antes de todas as coisas;
IV - todas as coisas subsistem por Cristo.
Se existissem outras realidades físicas além do universo observável, elas não poderiam escapar da soberania do Criador. Mas Paulo não apresenta uma pluralidade de histórias redentivas. Ele apresenta Cristo como Senhor de toda a criação. Aleluia!!!
14. HEBREUS 11:3 E A ORIGEM DA REALIDADE VISÍVEL
Hebreus 11:3 declara:
“Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.”
O termo grego αἰῶνες (aiōnes) possui campo semântico amplo e pode ser traduzido em determinados contextos como “séculos”, “idades” ou “eras”, embora traduções cristãs também utilizem “mundos” em Hebreus 11:3.
O ponto teológico do texto, porém, é inequívoco: a realidade visível possui origem na Palavra de Deus. Observou que o autor não apresenta o cosmos como realidade independente? Ele aponta para Deus. Aleluia!
15. JOÃO 1:3 E A TOTALIDADE DA CRIAÇÃO
João é ainda mais explícito: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.”
A construção joanina é radical:
πάντα — panta — todas as coisas.
E depois:
οὐδὲ ἕν — oude hen — nem uma coisa.
João aqui constrói uma distinção: “aquilo que foi feito”
Versus “aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas.”
Ta entendendo meu querido leitor? CRISTO NÃO ESTÁ DENTRO DA CATEGORIA DAS COISAS CRIADAS. ELE É O AGENTE DIVINO DA CRIAÇÃO.
Isso impede que qualquer estrutura cosmológica seja tratada como realidade autônoma diante de Deus.
16. ROMANOS 11:36 E A META DA COSMOLOGIA CRISTÃ
Paulo encerra uma das mais profundas seções teológicas de Romanos com uma doxologia:
“Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.”
Essa declaração é uma verdadeira cosmologia teológica.
Dele: origem.
Por ele: mediação.
Para ele: finalidade.
A pergunta: “Por que existe o universo?” não pode receber, dentro da teologia bíblica, uma resposta meramente física. A criação existe: “de Deus, por Deus e para Deus”.
17. O MULTIVERSO NÃO PODE SER TRANSFORMADO EM ESCATOLOGIA CRISTÃ
A cultura popular frequentemente leva o multiverso para a antropologia e para a escatologia. Surge então a ideia de:“outras versões de nós”.
Mas essa concepção não corresponde à antropologia bíblica. A Escritura apresenta:
I - UMA HUMANIDADE;
II - UMA QUEDA;
III - UMA HISTÓRIA DA REDENÇÃO;
IV - UM SALVADOR;
V - UMA CRUZ;
VI - UMA RESSURREIÇÃO;
VII - UM JUÍZO;
VIII - UMA CONSUMAÇÃO.
Não encontramos nas Escrituras uma doutrina de incontáveis versões alternativas da pessoa humana. Também não encontramos uma doutrina de múltiplas encarnações de Cristo em universos diferentes. Hebreus apresenta Cristo como aquele que:
Portanto, a “economia da salvação bíblica” possui unidade histórica e cristológica.
18. “DEUS PODERIA TER CRIADO OUTROS UNIVERSOS?”
Esta é uma pergunta importante. E a resposta precisa ser teologicamente equilibrada.
Sim, a onipotência divina não deve ser artificialmente limitada por nossa imaginação. Mas existe diferença entre: “Deus poderia fazer X” e: “Deus revelou que fez X.”
Nossa doutrina deve ser construída sobre a segunda proposição. A Bíblia não nos autoriza a afirmar que Deus criou múltiplos universos.Portanto, NÃO DEVEMOS DIZER: “É impossível que Deus tenha criado outra realidade.”
Devemos dizer: “A Escritura não nos revela essa realidade e, portanto, não podemos transformá-la em doutrina.”
Esse é um princípio fundamental da teologia evangélica: Onde a Escritura fala, devemos falar; onde a Escritura silencia, devemos ter cautela.
19. UMA CRÍTICA ASSEMBLEIANA AO NATURALISMO, NÃO À CIÊNCIA
Uma teologia pentecostal madura não deve ser inimiga da ciência. A Assembleia de Deus não precisa ensinar seus membros a rejeitar astronomia, física ou cosmologia. O problema não é a ciência. O problema é o cientificismo, quando o método científico é transformado em filosofia totalizante e se afirma que somente aquilo que pode ser investigado pelos métodos das ciências naturais é real.
Isso é uma afirmação filosófica. Não é uma descoberta científica. Plantinga é particularmente útil aqui ao distinguir ciência de naturalismo ontológico. (OUP Academic)
O cristão pode dizer: “Eu aceito a investigação científica do universo sem aceitar a conclusão filosófica de que o universo é tudo o que existe.”
Essa é uma posição intelectualmente defensável.
20. O ERRO DA “PIADA TEOLÓGICA”
A expressão utilizada no título é deliberadamente provocativa. A “piada teológica” não é estudar o multiverso. A “piada” está em imaginar que multiplicar a quantidade de universos necessariamente elimina Deus.
Se alguém disser: “Não existe um universo; existem trilhões.”
A pergunta permanece: “Por que existem trilhões?”
Se disser: “Existem infinitos.”
Perguntamos: “Por que existe a realidade capaz de sustentar essa infinitude?”
Se disser: “Existe um mecanismo natural que gera universos.”
Perguntamos: “Por que existe esse mecanismo e suas leis?”
Ora meus queridos, então a pergunta metafísica permanece. Apenas mudou de escala.
21. O MULTIVERSO COMO HIPÓTESE E O MULTIVERSO COMO COSMOVISÃO
Precisamos distinguir duas coisas.
21.1 Multiverso como hipótese cosmológica
Nesse caso, trata-se de uma possibilidade investigada dentro de determinados modelos científicos. O cristão pode acompanhar o debate. Pode estudar. Pode questionar. Pode aguardar novas evidências.
21.2 Multiverso como cosmovisão naturalista
Aqui a proposta assume função muito maior. Pois o multiverso passa a ser utilizado para afirmar que:
É nesse segundo nível que a crítica teológica se torna especialmente necessária. Porque já não estamos simplesmente falando de cosmologia. Estamos falando de METAFÍSICA.
22. O PROBLEMA DA TESTABILIDADE
George Ellis insiste nesse ponto.
Uma teoria científica precisa manter algum vínculo com a possibilidade de teste e confronto com a realidade observável. Ellis advertiu que determinadas versões do multiverso podem enfraquecer os critérios tradicionais de testabilidade científica. (OUP Academic)
Essa crítica não deve ser ignorada pelos teólogos. Mas também não devemos exagerá-la. Existem diferentes modelos de multiverso, e nem todos possuem exatamente o mesmo estatuto epistemológico. Portanto, a posição mais rigorosa é:
Algumas formulações do multiverso enfrentam dificuldades importantes de testabilidade e confirmação empírica; isso não equivale a demonstrar que toda hipótese multiversista seja logicamente impossível.
Essa formulação é cientificamente mais responsável.
23. A SOBERANIA DE DEUS E A COSMOLOGIA CONTEMPORÂNEA
A teologia assembleiana pode receber o desafio cosmológico sem abandonar sua doutrina fundamental.
Sabemos que o universo é vasto. Em decorrência disso acreditamos que a realidade pode ser muito mais complexa do que imaginávamos. E as leis físicas continuam produzindo perguntas. A matéria ainda guarda mistérios. A origem última continua sendo objeto de investigação. Mas tenha certeza querido leitor que nada disso ameaça a soberania de Deus. Pelo contrário. Quanto maior a criação que descobrimos, maior é a pergunta:QUEM É O CRIADOR?
Interessante que o salmista não conhecia telescópios modernos. Não conhecia a teoria da relatividade. Não conhecia nada da mecânica quântica. Nem tampouco da expansão cósmica.
A cosmologia moderna não anulou essa afirmação. Ela apenas tornou os céus muito mais grandiosos aos nossos olhos.
CONCLUSÃO
Amados, a hipótese do multiverso merece sim ser estudada. Merece investigação científica. Merece debate filosófico. Merece análise epistemológica. Mas não merece ser elevada ao status de dogma inventar um pouco merece ser equipolente haverá cidade da Bíblia sagrada, e muito menos deve ser utilizada como substituto metafísico de Deus. A Bíblia apresenta uma estrutura diferente.
DEUS É ETERNO.
A CRIAÇÃO É CONTINGENTE.
DEUS É CRIADOR.
CRISTO É O AGENTE E O CENTRO DA CRIAÇÃO.
A REALIDADE CRIADA DEPENDE DE DEUS.
A HUMANIDADE POSSUI UMA HISTÓRIA REDENTIVA.
A CRIAÇÃO CAMINHA PARA UMA CONSUMAÇÃO.
E é nisso que nós acreditamos, pela fé, em Deus e na sua Palavra!
Agostinho nos ajuda a compreender a dependência da criação em relação ao Criador. Tomás de Aquino aprofunda filosoficamente a noção de Deus como causa do ser. C. S. Lewis demonstra as dificuldades do naturalismo como explicação total da realidade. Plantinga mostra que ciência e teísmo não constituem necessariamente inimigos e distingue ciência de naturalismo. Swinburne questiona a racionalidade de multiplicar universos para substituir uma explicação teísta. Craig demonstra a relevância apologética do ajuste fino e da cosmologia. Ellis chama atenção para os limites epistemológicos e de testabilidade de determinadas versões do multiverso. Penrose demonstra, por outro lado, que a própria cosmologia contemporânea contém modelos alternativos sofisticados, que não podem ser reduzidos ao multiverso popular de filmes e ficção científica.
Portanto, uma teologia responsável precisa fazer TRÊS DISTINÇÕES:
I - CIÊNCIA NÃO É NATURALISMO;
II - HIPÓTESE NÃO É FATO;
III - POSSIBILIDADE NÃO É REVELAÇÃO.
E aqui finalmente meu querido leitor está o centro da questão. Não precisamos negar aquilo que a ciência ainda investiga. Precisamos apenas impedir que a especulação científica seja transformada em metafísica obrigatória.
A Bíblia não diz: “No princípio existiam infinitos universos.”
Ao contrário, A Bíblia diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” E o Novo Testamento completa: “PORQUE NELE FORAM CRIADAS TODAS AS COISAS QUE HÁ NOS CÉUS E NA TERRA, VISÍVEIS E INVISÍVEIS”. E Paulo encerra dizendo:
“PORQUE DELE, E POR ELE, E PARA ELE SÃO TODAS AS COISAS.”
Essa é a cosmologia cristã. Não uma cosmologia baseada no medo da ciência. Não uma cosmologia baseada na ignorância. Não uma cosmologia baseada na rejeição da investigação. Mas uma cosmologia fundamentada na revelação: DEUS É O CRIADOR!
O universo não é Deus. A matéria não é Deus. As leis da natureza não são Deus. O acaso não é Deus.
O multiverso, caso alguma de suas versões venha algum dia a ser demonstrada, também não seria Deus. Seria, no máximo, mais uma realidade criada. E se algum dia a ciência descobrir que nosso universo faz parte de uma estrutura cosmológica muito maior, o cristão não precisará abandonar Gênesis 1:1.
Poderá simplesmente ampliar sua admiração: “Quão grande é o Deus que criou tudo isso!”
Porque a grandeza da criação nunca poderá superar a grandeza do Criador.
“NO PRINCÍPIO CRIOU DEUS OS CÉUS E A TERRA.”
Não precisamos de infinitos deuses para explicar a existência. Não precisamos de infinitos universos para substituir Deus. Precisamos reconhecer aquilo que a Escritura sempre ensinou:
“Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.”
(Romanos 11:36)
NOTAS DE RODAPÉ
1. Sobre a distinção entre cosmologia científica, filosofia da cosmologia e teologia, ver a discussão ampla em Cosmology and Theology, da Stanford Encyclopedia of Philosophy. A obra apresenta as principais questões filosóficas envolvendo criação, cosmologia, princípio antrópico e multiverso. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
2. George F. R. Ellis critica a transformação do multiverso em fato científico estabelecido e chama atenção para os problemas de testabilidade envolvidos em algumas versões da proposta. Cf. ELLIS, George F. R. “Opposing the Multiverse.” Astronomy & Geophysics, v. 49, n. 2, 2008, p. 2.33–2.35. (OUP Academic)
3. Cf. ELLIS, George F. R. “Cosmology: The Untestable Multiverse.” Nature, v. 469, 2011, p. 294–295. DOI: 10.1038/469294a. (Nature)
4. Para uma introdução às diferentes concepções de multiverso e à relação entre multiverso e princípio antrópico, ver Cosmology and Theology, Stanford Encyclopedia of Philosophy. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
5. PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. Oxford: Oxford University Press, 2011. A tese central de Plantinga distingue ciência de naturalismo ontológico e sustenta uma concordância profunda entre ciência e religião teísta. (OUP Academic)
6. PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies, especialmente os capítulos sobre mecânica quântica e ação divina. Plantinga argumenta que a física quântica não estabelece incompatibilidade entre a ação providencial de Deus e a ciência contemporânea. (OUP Academic)
7. SWINBURNE, Richard. Is There a God? Oxford: Oxford University Press, 1996. A obra é citada na literatura especializada como referência de sua crítica à utilização de uma multiplicidade de universos para explicar a ordem e a sintonia fina do universo. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
8. CRAIG, William Lane. A discussão apologética de Craig sobre cosmologia, ajuste fino e multiverso pode ser relacionada à sua obra Reasonable Faith e a seus trabalhos sobre o argumento cosmológico e o ajuste fino. A literatura de referência registra Craig entre os teístas que consideram o princípio antrópico compatível com o design divino. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
9. LEWIS, C. S. Miracles. London: Geoffrey Bles, 1947; edição revisada, 1960. Lewis desenvolve nessa obra sua crítica filosófica ao naturalismo e sua defesa da possibilidade do sobrenatural. Estudos acadêmicos contemporâneos continuam destacando o chamado “argument from reason” de Lewis. (OUP Academic)
10. AGOSTINHO. A Cidade de Deus, especialmente os livros XI–XII e XXII. A reflexão agostiniana sobre Gênesis e criação ocupa posição central em sua teologia. Estudos acadêmicos destacam a recorrência de Agostinho à primeira frase de Gênesis em suas obras sobre criação. (Cambridge)
11. AGOSTINHO. A Cidade de Deus, XII, 12. Agostinho rejeita a concepção de uma criação eterna independente de Deus e discute a origem do mundo dentro da doutrina cristã da criação. (Biblioteca Virtual Logos)
12. AQUINO, Tomás de. Summa Contra Gentiles, II, 15. Aquino argumenta que Deus é causa do ser de todas as coisas e relaciona essa tese a João 1:3 e Romanos 11:36. (Aquinas 101)
13. AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae, I, q. 45. Aquino define criação como produção do ser e sustenta que somente Deus é o princípio primeiro da criação. (Aquinas 101)
14. PENROSE, Roger. “On the Gravitization of Quantum Mechanics 2: Conformal Cyclic Cosmology.” Foundations of Physics, v. 44, 2014, p. 873–890. DOI: 10.1007/s10701-013-9763-z. O artigo apresenta a cosmologia cíclica conforme proposta por Penrose. (Springer)
15. A cosmologia cíclica conforme não deve ser simplesmente identificada com todas as versões do multiverso. Trabalhos posteriores descrevem o modelo de Penrose como uma sequência de “éons” cosmológicos. (Springer)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae. Prima Pars, questões 44–45. Disponível em edições digitais da Summa Theologiae. (Aquinas 101)
AQUINAS, Thomas. Summa Contra Gentiles. Book II, Chapter 15: “That God Is to All Things the Cause of Being.” (Aquinas 101)
AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Livros XI–XII e XXII. Petrópolis: Vozes.
CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008.
ELLIS, George F. R. “Cosmology: The Untestable Multiverse.” Nature, v. 469, 2011, p. 294–295. (Nature)
ELLIS, George F. R. “Opposing the Multiverse.” Astronomy & Geophysics, v. 49, n. 2, 2008, p. 2.33–2.35. (OUP Academic)
ELLIS, George F. R. “Issues in the Philosophy of Cosmology.” arXiv, astro-ph/0602280, 2006. (arXiv)
LEWIS, C. S. Miracles. London: Geoffrey Bles, 1947; edição revisada, 1960. (UECF)
PENROSE, Roger. “On the Gravitization of Quantum Mechanics 2: Conformal Cyclic Cosmology.” Foundations of Physics, v. 44, 2014, p. 873–890. (Springer)
PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. Oxford: Oxford University Press, 2011. (OUP Academic)
SWINBURNE, Richard. Is There a God? Oxford: Oxford University Press, 1996. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
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