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30/04/2026

“SÉRIE PEREGRINOS DA PROMESSA: COMENTÁRIOS ÀS LIÇÕES BÍBLICAS DA CPAD” – Ev. PAULO NASCIMENTO

LIÇÃO 05 – O JUÍZO CONTRA SODOMA E GOMORRA


TEXTO ÁUREO

“Disse mais: Ora, não se ire o Senhor que ainda só mais esta vez falo: se, porventura, se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez.” (Gn 18.32)

INTRODUÇÃO

Os capítulos 18 e 19 de Gênesis constituem uma das mais complexas unidades narrativas da tradição patriarcal, articulando de forma densa três eixos fundamentais da teologia bíblica: revelação, intercessão e juízo. Não se trata meramente de um episódio histórico de destruição, mas de uma exposição paradigmática da relação entre a santidade divina e a responsabilidade moral da humanidade.

A narrativa apresenta uma tensão estrutural entre a longanimidade de Deus e a progressiva degeneração ética de Sodoma. O termo hebraico utilizado para descrever o estado moral da cidade, רָעָה (ra‘ah, “maldade”), indica não apenas atos isolados, mas uma condição sistêmica de corrupção social.

Conforme observa Claus Westermann, o “clamor” (זַעֲקָה – za‘aqah) que sobe até Deus (Gn 18.20) possui conotação jurídica, indicando que a injustiça atingiu um nível que exige intervenção divina. Deus não age arbitrariamente; Ele responde a uma realidade moral objetiva.

Assim, o juízo sobre Sodoma e Gomorra deve ser compreendido dentro da lógica da justiça divina que responde à recusa persistente do arrependimento, um princípio que atravessa toda a Escritura (cf. Rm 2.4–6).

I – REVELAÇÃO E HOSPITALIDADE: A TEOLOGIA DA PRESENÇA DIVINA (Gn 18.1–15)

1. A teofania em Manre: Deus que se revela relacionalmente

A abertura do capítulo 18 é marcada por uma teofania singular: “E apareceu o Senhor a Abraão…” (Gn 18.1)

O verbo וַיֵּרָא (vayyērā’) indica manifestação deliberada, revelando que Deus se faz conhecer dentro da história. A presença divina não é abstrata, mas encarnada em formas perceptíveis.

Segundo Gerhard von Rad, essa narrativa revela uma característica essencial da fé israelita: Deus não é apenas transcendente, mas também historicamente acessível.

A presença dos “três homens” deve ser compreendida como uma forma de mediação da revelação divina, onde o divino e o angelológico se entrelaçam sem distinção rígida.

2. Hospitalidade como categoria teológica

A resposta de Abraão é imediata e intensa: ele corre, prostra-se e serve (Gn 18.2–8).

No contexto do Antigo Oriente Próximo, a hospitalidade (ḥesed) não era apenas um valor social, mas um dever moral sagrado. Aqui, porém, ela assume dimensão teológica: torna-se meio de comunhão com o próprio Deus.

Como observa Walter Brueggemann, a hospitalidade de Abraão não é apenas cortesia, mas discernimento espiritual, ele reconhece no outro a possibilidade da presença divina.

Este princípio ecoa no Novo Testamento:

“Porque, sem o saberem, alguns hospedaram anjos.” (Hb 13.2)

3. O riso de Sara: a antropologia da fé tensionada

O riso de Sara (Gn 18.12), derivado do hebraico צָחַק (tsachaq), expressa uma tensão existencial entre promessa e realidade.

Não se trata de negação absoluta, mas de um conflito interno entre:

  • a experiência histórica (esterilidade) 
  • a palavra divina (promessa de vida) 

Terence Fretheim observa que esse riso revela a dimensão profundamente humana da fé bíblica: ela não elimina a dúvida, mas a atravessa.

A resposta divina em Gn 18.14 estabelece um dos axiomas teológicos centrais da Escritura:

“Acaso há coisa demasiadamente difícil ao Senhor?”

Aqui se fundamenta a teologia da onipotência não como abstração filosófica, mas como intervenção concreta na história humana.

SINOPSE I

A revelação divina ocorre em contexto relacional, e a fé autêntica não elimina o paradoxo, mas se desenvolve dentro dele.

II – A INTERCESSÃO DE ABRAÃO: JUSTIÇA DIVINA E MEDIAÇÃO HUMANA (Gn 18.16–33)

1. A revelação do juízo: Deus que compartilha seus desígnios

Em Gn 18.17, Deus declara:

“Ocultarei eu a Abraão o que faço?”

Essa afirmação revela um princípio teológico profundo: a intimidade com Deus implica participação em seus propósitos.

O verbo hebraico יָדַע (yada‘), associado à eleição de Abraão (v.19), indica conhecimento relacional, não meramente cognitivo.

Segundo Ben Witherington III, dentro da perspectiva arminiana, essa relação implica responsabilidade ética: conhecer a Deus é participar de sua justiça.

2. A estrutura da intercessão: entre ousadia e reverência

A intercessão de Abraão (Gn 18.23–32) segue uma progressão descendente (50 → 10), revelando:

  • consciência da própria limitação (“pó e cinza”) 
  • ousadia baseada no caráter de Deus 
  • perseverança relacional 

Abraão fundamenta sua argumentação não na necessidade humana, mas na justiça divina:

“Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (v.25)

John Wesley enfatiza que a intercessão não altera a natureza de Deus, mas se alinha a ela.

3. A graça resistível e o limite da intercessão

Apesar da intercessão, Sodoma não é poupada.

Aqui emerge um dos princípios centrais da teologia arminiana: a graça divina pode ser resistida.

Deus demonstra disposição para poupar, mas a ausência de justos revela a profundidade da corrupção moral.

Como observa I. Howard Marshall, a paciência divina não anula a responsabilidade humana; ela a intensifica.

SINOPSE II

A intercessão revela que Deus opera relacionalmente, mas sua justiça não é anulada pela persistência do pecado.

III – O JUÍZO DE DEUS: SANTIDADE, HISTÓRIA E CONSEQUÊNCIA MORAL (Gn 19)

1. A natureza do pecado de Sodoma: além da superfície moral

A tradição bíblica amplia a compreensão do pecado de Sodoma:

  • Ezequiel 16.49 → soberba, indiferença social 
  • Isaías 1.10–17 → corrupção institucional 
  • Judas 7 → desordem moral 

Portanto, Sodoma representa uma estrutura de pecado, não apenas práticas isoladas.

Segundo Christopher Wright, trata-se de uma sociedade que normalizou a injustiça, um colapso ético coletivo.

2. O juízo como resposta histórica da santidade divina

A destruição descrita em Gn 19.24, “enxofre e fogo”, deve ser compreendida como intervenção divina na história.

Arqueologicamente, estudos da região do Mar Morto indicam atividade geológica compatível com eventos catastróficos, o que reforça a plausibilidade histórica do relato.

Teologicamente, o evento torna-se paradigma:

  • Deuteronômio 29.23 → advertência 
  • Lucas 17.29 → tipologia escatológica 

O juízo não é apenas passado, ele aponta para uma realidade futura.

3. A mulher de Ló: a teologia da ruptura incompleta

A transformação da esposa de Ló em estátua de sal (Gn 19.26) simboliza uma verdade espiritual profunda:

não basta sair fisicamente, é necessário romper interiormente.

O olhar para trás representa apego existencial ao sistema condenado.

Jesus retoma esse princípio:

“Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lc 17.32)

Craig Keener observa que esse episódio evidencia que a salvação exige ruptura integral com o passado.

SINOPSE III

O juízo divino revela que a santidade de Deus responde à corrupção persistente, e a salvação exige ruptura total com o pecado.

CONCLUSÃO

O relato de Sodoma e Gomorra não é apenas uma narrativa de destruição, mas uma revelação da estrutura moral do governo divino.

Nele, aprendemos que:

  • Deus é paciente, mas não indiferente 
  • a intercessão é poderosa, mas não substitui o arrependimento 
  • a graça é oferecida, mas pode ser rejeitada 
  • o juízo é inevitável quando a corrupção se torna estrutural 

Abraão intercede, Deus ouve, mas a cidade permanece irredimível.

Assim, a teologia do texto aponta para uma verdade incontornável:

a misericórdia divina não anula a justiça, ela a antecede como oportunidade.

PARA REFLEXÃO

  1. Até que ponto a intercessão pode influenciar o curso da história sem anular a responsabilidade humana? 
  2. Como discernir o limite entre a paciência divina e o início do juízo? 
  3. A cultura contemporânea apresenta paralelos estruturais com Sodoma? 
  4. O que significa, na prática, não “olhar para trás” na vida cristã? 

BIBLIOGRAFIA

  • Gerhard von Rad. Teologia do Antigo Testamento 
  • Claus Westermann. Genesis: A Commentary 
  • Walter Brueggemann. Genesis 
  • Terence Fretheim. The Book of Genesis 
  • John Wesley. Explanatory Notes upon the Old Testament 
  • I. Howard Marshall. Teologia do Novo Testamento 
  • Ben Witherington III. The Problem with Evangelical Theology 
  • Christopher J. H. Wright. Old Testament Ethics for the People of God 
  • Craig S. Keener. Comentário Bíblico Cultural 
  • CPAD. Lições Bíblicas Adultos – 2º Trimestre de 2026

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