LIÇÃO 01 – ABRAÃO: SEU CHAMADO E SUA JORNADA DE FÉ
TEXTO ÁUREO “Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” (Gn 12.1).
INTRODUÇÃO
Neste trimestre, estudaremos a jornada de fé dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. A narrativa patriarcal, especialmente em Gênesis 12–50, constitui não apenas um registro histórico-teológico, mas o fundamento da teologia da eleição, da promessa e da aliança no Antigo Testamento.
O chamado de Abrão deve ser compreendido dentro do contexto do Antigo Oriente Próximo. Ele vivia em Ur dos Caldeus, um dos centros urbanos mais sofisticados do segundo milênio a.C., marcado por organização política, economia estruturada e religiosidade politeísta, especialmente o culto ao deus-lua Sin. Conforme evidenciado em Livro de Josué 24.2, a família de Abrão estava inserida em um ambiente idólatra. Assim, o chamado divino não representa apenas deslocamento geográfico, mas uma ruptura epistemológica e teológica: Abrão é retirado de um sistema cosmológico politeísta para ingressar em uma relação pactual com o Deus único.
Seu nome, Abrão (“pai exaltado”), é posteriormente transformado em Abraão (“pai de uma multidão”), conforme Gênesis 17.5, indicando não apenas mudança nominal, mas redefinição ontológica de sua identidade dentro da economia da revelação.
I – DEUS CHAMA ABRÃO
1. A fé de Abrão diante do chamado (Gn 12.1)
O imperativo divino em Gn 12.1 apresenta a expressão hebraica ָלֶךְ־לְך (lekh-lekha), cuja construção reflexiva intensifica a natureza existencial do chamado: “vai para ti mesmo”, sugerindo não apenas movimento físico, mas deslocamento identitário.
A tríplice exigência, terra, parentela e casa do pai, revela uma desconstrução progressiva das estruturas de pertencimento do mundo antigo. No contexto patriarcal, essas estruturas garantiam identidade, proteção jurídica e continuidade social. A ruptura, portanto, implica uma reconfiguração total da vida sob a dependência exclusiva de Deus.
Segundo Gerhard von Rad, este chamado inaugura a história da salvação mediante um ato de eleição que rompe com a ordem natural e estabelece uma nova realidade baseada na promessa divina. A fé de Abrão, nesse estágio, não é conceitual, mas performativa. Conforme interpretado no Novo Testamento em Epístola aos Hebreus 11.8, trata-se de uma fé que opera na ausência de visibilidade e segurança empírica.
2. A promessa para Abrão
A promessa de Gn 12.2,3 apresenta uma estrutura literária que muitos estudiosos identificam como uma forma primitiva de aliança, composta por elementos de concessão e missão.
Os verbos hebraicos estão no modo conotativo e imperfeito, indicando ação divina contínua:
• “farei” (formação nacional)
• “abençoarei” (intervenção divina direta)
• “engrandecei” (projeção histórica)
• “serás uma bênção” (função mediadora)
O clímax teológico está na expressão:
“em ti serão benditas todas as famílias da terra”
O verbo hebraico pode ser entendido tanto em sentido passivo (“serão benditas”) quanto reflexivo (“abençoar-se-ão”), indicando que Abraão se torna paradigma e instrumento da bênção divina universal.
O apóstolo Paulo de Tarso, em sua leitura midráshica em Gálatas 3.8, identifica essa promessa como antecipação do Evangelho, revelando que a eleição de Abraão possui finalidade missional e escatológica.
3. As bênçãos de Deus para Abrão
A bênção divina em Gn 12.2-3 apresenta caráter multifacetado:
• dimensão relacional: Deus estabelece vínculo pessoal com Abrão
• dimensão histórica: seu nome é projetado além de sua geração
• dimensão jurídica: Deus assume papel de defensor (“abençoarei… amaldiçoarei”)
A mudança de nome em Gênesis 17.5 representa um ato performativo divino, comum no Antigo Testamento, onde o nome define a missão e o destino.
Teologicamente, essa seção revela que a bênção não é um fim em si mesma, mas um meio pelo qual Deus executa seu propósito redentivo na história.
II – A OBEDIÊNCIA DE ABRÃO A DEUS
1. Atendendo o chamado
A resposta de Abrão em Gn 12.4 é narrativamente abrupta: “Assim partiu Abrão”.
O texto hebraico não apresenta elementos psicológicos ou deliberativos, o que sugere uma obediência imediata e resoluta.
Conforme Gordon J. Wenham, a narrativa enfatiza que a fé bíblica é essencialmente dinâmica, sendo definida pela resposta obediente à palavra divina. Essa perspectiva é posteriormente sistematizada em Epístola aos Hebreus 11.1, onde a fé é descrita como realidade ontológica que sustenta a ação.
2. Um descuido
A presença de Ló na jornada (Gn 12.4,5) levanta uma questão exegética relevante: teria Abrão obedecido parcialmente?
Embora o texto não apresente uma condenação explícita imediata, a narrativa subsequente (Gn
13) demonstra que essa escolha gera tensões e conflitos.
Isso sugere que a obediência de Abrão, embora genuína, ainda está em processo de amadurecimento.
Teologicamente, evidencia-se que a caminhada da fé inclui ajustes progressivos, nos quais Deus continua operando apesar das imperfeições humanas.
3. A passagem por Harã
A permanência em Harã (Gn 11.31) deve ser entendida dentro do contexto das rotas comerciais da Mesopotâmia. Harã era um centro estratégico, tanto economicamente quanto religiosamente, também associado ao culto ao deus-lua.
Esse estágio intermediário revela que o cumprimento das promessas divinas frequentemente ocorre de forma processual.
À luz de Deuteronômio 8.2, entende-se que Deus utiliza o percurso para formar o caráter, testando e moldando seus servos.
III – AS LUTAS QUE ABRÃO ENFRENTOU AO CHEGAR A CANAÃ
1. A dificuldade contra a fome (Gn 12.10)
A ocorrência de fome em Canaã introduz uma tensão teológica significativa: a terra prometida não oferece, inicialmente, condições favoráveis.
Do ponto de vista histórico, Canaã dependia de chuvas irregulares, tornando-se vulnerável a crises agrícolas, enquanto o Egito, sustentado pelo Nilo, apresentava maior estabilidade.
Essa realidade demonstra que a promessa divina não elimina imediatamente as adversidades, mas as insere no processo formativo da fé.
2. A dificuldade de ir para o lugar certo
A descida ao Egito levanta um debate exegético: trata-se de estratégia legítima ou falha de confiança? Embora o texto não ofereça julgamento explícito imediato, o desenvolvimento narrativo sugere uma tensão entre dependência de Deus e soluções baseadas na percepção humana.
Segundo John Goldingay, esse episódio reflete a complexidade da fé vivida, onde o crente oscila entre confiança plena e respostas condicionadas pelas circunstâncias.
3. A dificuldade em falar a verdade (Gn 12.11-18)
A atitude de Abrão ao declarar Sarai como sua irmã revela uma estratégia de autopreservação baseada no medo.
Do ponto de vista ético, trata-se de uma falha significativa. No entanto, a narrativa desloca o foco da falha humana para a intervenção divina:
• Deus intervém diretamente
• Deus protege Sarai
• Deus preserva a promessa
Conforme argumenta Walter Brueggemann, o texto enfatiza que a fidelidade da aliança está fundamentada na ação de Deus, e não na consistência moral do patriarca.
CONCLUSÃO
A trajetória de Abraão evidencia que a fé bíblica deve ser compreendida como uma realidade dinâmica, marcada por tensão, crescimento e dependência contínua de Deus.
Ele não é apresentado como modelo de perfeição, mas como paradigma de alguém que responde ao chamado divino e caminha sob a sustentação da graça.
A ênfase central da narrativa reside na fidelidade de Deus, que conduz, corrige e cumpre suas promessas, mesmo diante das limitações humanas.
PARA REFLEXÃO
1. Em que medida o chamado de Deus exige ruptura com estruturas de segurança humana?
2. Como compreender a tensão entre promessa divina e realidade adversa?
3. De que forma as falhas de Abraão contribuem para uma teologia da graça?
4. Estamos preparados para viver uma fé que antecede a compreensão plena?
BIBLIOGRAFIA
•Gerhard von Rad. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE.
•Gordon J. Wenham. Genesis 1–15 (Word Biblical Commentary). Dallas: Word Books.
•John H. Walton. Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament. Grand Rapids:
Baker Academic.
•Walter Brueggemann. Genesis (Interpretation Commentary). Louisville: Westminster
John Knox Press.
•John Goldingay. Old Testament Theology: Israel’s Gospel. Downers Grove: IVP
Academic.
•Kenneth Kitchen. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans.
•Lawrence O. Richards. Guia do Leitor da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD.
•Sociedade Bíblica do Brasil. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri: SBB.
•CPAD. Lições Bíblicas Adultos – 2º Trimestre de 2026. Rio de Janeiro: CPAD.

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