Siga-nos nas redes sociais Facebook Twitter Instagram

Artigos

Orisvaldo Wesley Nicácio de Lima
24/12/2025

A Teologia do Presente: Resgatando o Verdadeiro Sentido da Troca de Presentes no Natal

ÁREAS DE INTERESSE: Cristologia; Soteriologia; Teologia Prática e Litúrgica; Teologia Cultural e Apologética.


Quando Dezembro Chega

Dezembro chega com seu roteiro ensaiado: amigos secretos, vitrines reluzentes, e aquela pergunta que se tornou mantra de todo período natalino: “O que você vai me dar de presente este natal?” Sob o brilho dos LEDs das fachadas e vitrines das lojas e o frenesi do consumo, o verdadeiro Protagonista da festa foi discretamente escanteado para fora da história, aos poucos substituído por renas, neve, trenó e um “bom velhinho” distribuindo presentes de um saco vermelho.

Mas o Natal não é um mero feriado comercial — é a celebração do maior evento da humanidade: a Encarnação do Verbo! E a tradição de trocar presentes? Tem raízes teológicas profundas que a publicidade jamais contará.


O Problema: “Natal sem Natal”

A efemeridade das relações modernas e a suposta autossuficiência do cientificismo criaram um abismo entre criatura e Criador. Vivemos sob ilusão de onipotência humana — como se não precisássemos de Deus.

Nosso século vendeu a narrativa de que somos autossuficientes em todas as coisas, capazes de construir nossa própria torre até os céus, assim como os construtores de Babel (Gn.11). O cientificismo e o materialismo modernos nos prometeram respostas definitivas, e a cultura contemporânea nos seduziu com a ideia de que relacionamentos transcendentes são desnecessários (e até inexiste – não há um Deus, e se houver, são muitos e podemos escolher dentre eles o que se adequa melhor a mim, ao que penso e ao que acho).

Precisamos encarar um fato desconfortável: o isolamento espiritual que assistimos hoje não é sinal de progresso, mas uma forma latente de degeneração. A tentativa deliberada de apagar, desvirtuar ou ressignificar o Natal (não só o Natal, mas também toda e quaisquer outras referencias ao transcendente e a existência de uma realidade imaterial, principalmente o conceito de um Deus na concepção bíblica judaico-cristã), subtraindo dele o seu DNA de "presente de Deus", revela uma involução da alma humana. 

Ao tentarmos deletar nossa carência do Criador colocando elementos humanos em lugar de Deus (trocar o Teocentrismo pelo Antropocentrismo), não nos tornamos mais livres; apenas agravamos a enfermidade que nos distancia da vida. Esse esforço em transformar a celebração em um mero feriado secular é, na verdade, um sintoma de uma humanidade que piora a própria situação ao tentar se curar sem o Médico. Quando esvaziamos a manjedoura de seu propósito sagrado, o que sobra é uma festa de ausências: um dezembro repleto de luzes coloridas, mas mergulhado na mais profunda escuridão espiritual. O Natal sem Cristo não é uma nova versão da festa; é o seu completo apagamento.


A Raiz: Por Que Precisávamos de Um Presente

Para compreendermos o brilho da estrela de Belém e o real significado do natal, precisamos primeiro encarar a escuridão do nosso próprio relatório moral. A Bíblia nos entrega o diagnóstico mais cru e honesto da nossa espécie: "Não há um justo, nem um sequer" (Rm.3:10-12).

O que nenhum de nós — principalmente no século XXI — quer ouvir é que somos pecadores, limitados, que há um padrão de "certo" e de "errado", muito mais que existe um Deus criador de todas as coisas acima de nós e de toda essa realidade e que conosco se preoculpa. A mensagem do Natal começa com uma verdade que nossa cultura resiste: Deus existe! Estamos d'Ele separados, somos indignos, limitados, incapazes de nos salvar-mos por mérito ou esforço próprio. Mas essa não é a má notícia — é o contexto que torna a boa notícia tão gloriosa.

Carregamos em nosso DNA a marca do pecado de Adão. Como bem escreveu o apóstolo Paulo: "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm.3:23). Vivíamos em estado de falência espiritual, sem qualquer perspectiva de solução. O salário para o nosso melhor esforço humano era uma sentença de morte irremediável (Rm.6:23).

Estávamos presos em um ciclo de sombras — incapazes de abrir o livro da nossa própria história ou de desatar os selos que nos prendiam ao medo e à separação. Precisávamos de um Presente que não poderíamos comprar, merecer ou conquistar. Precisávamos de um Salvador.


Jesus: O Presente de Deus à Humanidade!

Se o Natal fosse uma grande reportagem investigativa sobre o destino humano, o ponto de virada (o clímax) não seria um decreto de um imperador romano, mas uma declaração de amor que se materializou em uma pessoa, escrita em DNA humano, Deus-homem, a divindade criadora assumindo o papel de criatura e habitando entre nós por um proposito de redenção e salvação. O evangelista João, escreve acerca deste evento, simplesmente o evento mais disruptivo do cosmos: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo.1:14).

Deus não enviou um memorando, um e-mail ou uma nova lei. Ele enviou a Si mesmo. O Logos — a Razão de todas as coisas — decidiu "armar Sua tenda" no nosso bairro. Ele trocou a suntuosidade da eternidade pela fragilidade de uma manjedoura para que a Glória de Deus não fosse apenas um conceito abstrato, mas alguém que pudéssemos tocar, ouvir e seguir. Não demorou para que o objetivo desse presente ficasse claro. João Batista, ao avistar Jesus, compreendeu e verbalizou a verdade que ecoa há dois milênios: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo.1:29).

Diferente dos presentes que recebemos hoje e que perdem a validade com o tempo, Jesus veio com uma missão sacrificial válida para toda eternidade. O Natal é o início de um caminho que obrigatoriamente passa pela Cruz. Ele não veio apenas para ser um exemplo moral; Ele veio para ser o nosso Substituto. No tribunal da justiça divina, onde a manchete sobre nós era "Culpados", Ele assumiu a nossa sentença de morte para que pudéssemos receber o Seu certificado de vida.

O maior benefício desse presente não é material, mas relacional. Por meio do sacrifício de Jesus, o véu da separação — aquele distanciamento causado pela nossa "onipotência humana" — foi rasgado, a ponte reconstruída: Jesus é o único mediador que fala as duas línguas: a de Deus e a dos homens.

O Retorno da Glória: Lembra-se de que estávamos "destituídos da glória"? Em Cristo, essa glória é devolvida à humanidade, não como um troféu de mérito, mas como uma herança de filhos, exclusivamente pela graça, por favor imerecido a nós, simplesmente porque Deus quis que assim o fosse.


Por que Trocamos Presentes Afinal? A Teologia por Trás do Pacote

Para o senso comum, a troca de presentes é apenas o motor da economia de dezembro. Mas, em verdade, o ato de presentear é um memorial vivo de um favor que nunca poderíamos pagar (a regeneração da comunhão com Deus perdida no Édem). A resposta para essa tradição (comemorar o natal nos confraternizando e presenteando uns aos outros) não está nas vitrines reluzentes, mas na essência do Evangelho.

Trocamos presentes por três razões fundamentais que dão sentido à nossa existência:

  1. A Imitação da Graça e o Reconhecimento da nossa Incapacidade Deus foi o primeiro e maior Doador. Ao enviar Seu Filho Único (Jo.3:16), Ele estabeleceu o padrão da generosidade. Quando entregamos um presente, estamos exercendo uma pálida, mas sincera, imitação dessa Graça. O gesto revela uma verdade humilde: somos seres dependentes. Assim como dependemos da bondade alheia para receber um agrado, dependemos inteiramente da Graça Divina para a salvação. O presente é, portanto, uma metáfora da Redenção: algo que recebemos sem mérito, por puro amor.
  2. O Legado dos Magos: Adoração em Forma de Oferta Ouro, incenso e mirra não foram apenas mimos para um recém-nascido; foram atos de adoração que reconheciam a realeza, a divindade e o sacrifício de Cristo. Ao presentearmos hoje, resgatamos esse nobre ato. Cada caixa aberta sob a árvore deveria ser um lembrete visual de que o Pai nos "deu" o Seu Melhor. É um exercício de gratidão que tira o foco de nós mesmos e o coloca no Doador da Vida.
  3. A Humanização da Fé e a Celebração da Koinonia A essência do cristianismo é: cremos que a fé se manifesta nos relacionamentos. O presente é um símbolo tangível de que valorizamos o próximo como Imago Dei (imagem e semelhança de Deus). No brilho dos olhos de quem recebe um afeto, vemos um reflexo da alegria dos magos ao encontrarem a Esperança em pessoa. É a nossa fé se tornando humana, palpável e comunitária, fortalecendo a comunhão cristã — a nossa preciosa koinonia.

Na lógica infantil, o presente de Natal deveria ser uma recompensa pelo bom comportamento ao longo do ano. Mas qualquer pai ou mãe sabe que essa equação não se sustenta. Nenhuma criança atravessa os doze meses sem deslizes: há birras, desobediências, teimosias e momentos de malcriação. Ainda assim, na noite de Natal, o pacote colorido repousa sob a árvore. O presente é entregue não porque foi merecido, mas porque o amor decidiu oferecê-lo.

O presente natalino é uma parábola viva da graça. Assim como secularmente o “Papai Noel” distribui presentes sem calcular méritos, Deus nos ofereceu Seu Filho mesmo sabendo que não havia em nós justiça suficiente para merecê-Lo. A dádiva não nasce da perfeição do receptor, mas da bondade do doador.

O gesto de presentear, portanto, não é apenas tradição cultural ou motor da economia de dezembro. Ele carrega em si uma mensagem silenciosa: recebemos mesmo sem merecer. Cada caixa aberta, cada sorriso infantil diante de um brinquedo inesperado, é um lembrete de que a graça não se fundamenta em desempenho, mas em amor.

O Natal revela o ciclo perfeito da graça: Deus nos deu Seu Filho como presente supremo — não porque merecíamos, mas porque Ele nos amou. Nossa resposta não poderia ser outra senão adoração que se materializa em atos concretos.

É aqui que a troca de presentes ganha seu significado mais profundo. Longe de ser apenas costume comercial, presentear é um memorial vivo da graça que recebemos. Cada presente compartilhado torna-se um selo de gratidão: lembramos que fomos presenteados primeiro, e por isso presenteamos. Imitamos os magos que, ao reconhecerem a divindade de Cristo, entregaram seu melhor em adoração.

Assim, quando estendemos um presente ao próximo e nos confraternizamos com ele, fazemos mais que cumprir tradição — proclamamos uma verdade: amamos porque Ele nos amou primeiro; damos porque n'Ele recebemos tudo, celebramos a comunhão novamente reestabelecida com Deus a base do amor ao próximo. A troca de presentes e a confraternização entre irmãos transforma-se, então, em extensão da manjedoura: um altar vivo onde nosso reconhecimento da soberania de Cristo transborda em generosidade, e a festa se torna comunhão verdadeira e celebração do amor.


O Amor como Fato: A Última Página da Nossa Celebração

Se no Antigo Testamento o resumo da Lei era o amor a Deus e ao próximo (Mt.22.37-40), em Jesus esse conceito ganha carne, sangue e uma urgência renovada. Ele não apenas repetiu a lição, verdadeiramente nos entregou um novo mandamento, transformando o amor em uma evidência pública (Jo.13.34). Por isso, quando estendemos a mão para presentear alguém neste Natal, não estamos apenas cumprindo um protocolo social ou uma etiqueta de fim de ano. Estamos, na verdade, erguendo um memorial.

Presentear é um ato de reconhecimento ao Amor Maior. É a nossa resposta humana àquela que é a notícia definitiva das Escrituras: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito" (Jo.3:16). Note a precisão do texto: Deus não apenas sentiu, Ele deu. O Natal é a consagração do amor relacional transformado em fato histórico, e não em um sentimento efêmero que se apaga com as luzes da árvore.

Celebrar o verdadeiro Natal é mergulhar nessa essência. É entender que cada presente trocado entre nós é um símbolo, um pequeno rastro de luz que aponta para a generosidade de um Pai que não nos deixou órfãos de Sua glória. Ao celebrarmos este amor consagrado em atos, resgatamos a pessoalidade perdida na correria dos dias. Que a sua troca de presentes seja, portanto, um sacramento de gratidão: amamos porque Ele nos amou primeiro; presenteamos porque n’Ele recebemos tudo. Isso é celebrar o Natal. Isso é viver o Amor.


Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado estará sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Isaías 9:6


Que o barulho das embalagens não silencie a voz do Espírito Santo em seu coração!

Feliz Natal!

*O conteúdo e opinião expressas são de inteira responsabilidade de seu autor.
Comentários

Rádio Online

Ouça

Cadastro

Cadastre-se e receba as últimas novidades do Portal AD Alagoas.

Correspondente

Interaja com o Portal AD Alagoas e envie sugestões de matérias, tire suas dúvidas, e faça parte do nosso conteúdo.

participe »
Lições Bíblicas
Estudos Bíblicos
Correspondente - Enviar Matéria

Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Templo Sede
Av. Moreira e Silva, nº 406, Farol

 

Horário de Cultos

Aos Domingos 09:00h - Escola Dominical

Aos Domingos 18:30h - Culto Evangelístico

As Terças-feiras 18:30h - Culto de Doutrina

As Quarta-feiras 10:00h as 17hs - Círculo de Oração

As Sextas-feiras 18:30h - Culto de Oração

Facebook Twitter Instagram
Siga-nos nas Redes Sociais
Utilizamos cookies para coletar dados e melhorar sua experiência, personalizando conteúdos e customizando a publicidade de nossos serviços confira nossa política de privacidade.