Siga-nos nas redes sociais Facebook Twitter Instagram

Artigos

Orisvaldo Wesley Nicácio de Lima
22/02/2025

A DIVERSIDADE DO COLÉGIO APÓSTOLICO E SEUS PROPOSITOS: OS DISCÍPULOS/APÓSTOLOS DE JESUS E SUAS CONEXÕES COM AS DIVERSAS CORRENTES JUDAICAS DO PRIMEIRO SÉCULO

ÁREAS DE INTERESSE: Eclesiologia; Apologética Cristã; Missiologia; Cristologia.


A composição do colégio apostólico convocado por Jesus no inicio de seu ministério reflete a diversidade complexa e multifacetada do judaísmo do primeiro século, trazendo à tona a convergência de diferentes cosmovisões teológicas, políticas e sociais.

Tal diversidade não apenas sublinha a inclusão característica do evangelho, mas também destaca o caráter transformador e apologético da missão de Cristo. Jesus, em sua abordagem única, não se limitou a pregar uma mensagem genérica, mas confrontou diretamente as perspectivas ideológicas e religiosas das várias seitas judaicas (correntes de pensamento e práticas) da época, desafiando seus seguidores a uma verdadeira mudança de vida e atitude.

Ele não apenas questionou as interpretações convencionais da Torá e das Escrituras existentes no inicio do primeiro século, mas também confrontou as tensões sociais e políticas que dividiam os siversos grupos religiosos (confrontou a compreenção em suas interpretações e práticas cootidianas acerca dos textos sagrados), como os fariseus, saduceus, escribas, zelotes, essênios e herodianos.

A atuação apologética de Jesus, ao chamar homens de origens tão diversas e contrastantes, visava não apenas promover um diálogo com essas seitas, mas transformar radicalmente as suas visões de mundo. Ele não procurou apenas discutir questões teológicas, mas buscou estabelecer um novo paradigma de vida e atitude, fundamentado no amor incondicional, na verdade revelada e na fraternidade verdadeira entre os seguidores.

Unidade na Diversidade do Colégio Apostólico: A Igreja Edificada em Cristo

Jesus elaborou seu ministério sobre um princípio revolucionário: a unidade na diversidade. Ele chamou pescadores humildes, um cobrador de impostos odiado e até um zelote insurgente para segui-lo, desafiando as barreiras religiosas e sociais de seu tempo. Ao reunir pessoas de perfis tão distintos, Cristo rompeu com os exclusivismos das seitas judaicas e revelou que o Reino de Deus não se define por status, linhagem ou ideologia, mas pela verdade do evangelho e pelo amor que transcende qualquer divisão pondo a harmonia e o amor a Deus e ao próximo como pilar de sua mensagem.

A transformação dos discípulos não foi apenas um ajuste de conduta, mas sim uma verdadeira e profunda mudança de identidade. De seguidores inseguros, tornaram-se apóstolos, moldados pelo ensino e pela presença do Mestre. Cada um, com sua história e fraquezas, foi integrado a um novo povo, não mais fragmentado por facções e interesses próprios, mas edificado sobre Cristo, a pedra angular (Ef 2:14).

Essa unidade fundamentada na fé foi confirmada no diálogo entre Jesus e Pedro: "Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16:18). A igreja nascente não era um agrupamento de camadas, mas um corpo vivo, construído sobre a centralidade em cristo conforme a confissão de Pedro: Cristo como Senhor. Assim, desde seus primórdios, o cristianismo já se estabeleceu como um chamado à comunhão, superando barreiras humanas e apontando para um horizonte de redenção e esperança.

Mateus e sua Possível Ligação com os Herodianos

Mateus, também chamado de Levi, era um coletor de impostos, profissão que o associava aos romanos e, possivelmente, aos herodianos – um grupo que apoiava a dinastia de Herodes e a influência política de Roma sobre a Judeia. Os publicanos eram vistos como traidores pelo povo judeu, pois arrecadavam impostos para o império opressor e muitas vezes praticavam extorsão.

  • Mt.9.9 – "Jesus viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: ‘Segue-me’. E ele se levantou e o seguiu."

A inclusão de Mateus entre os discípulos ilustra o alcance da graça de Cristo, que chama até aqueles que eram marginalizados pela sociedade judaica. Sua presença no grupo apostólico também revela a diversidade política dos seguidores de Jesus, pois Mateus, um ex-colaborador do império romano, convivia com Simão, o Zelote, um provável opositor ferrenho do domínio romano.

Simão, o Zelote, e sua Oposição Política aos Romanos

Simão é identificado nos evangelhos como "o Zelote", o que sugere que ele tenha sido associado ao movimento revolucionário judaico que buscava a libertação de Israel do domínio romano, possivelmente por meio da luta armada. Os zelotas eram conhecidos por sua resistência violenta ao domínio romano, acreditando ser necessário lutar pela libertação de Israel

Dentre os zelotas havia um grupo mais radical dissidente, denominados por sicários, que eram conhecidos por assassinatos e sequestros de oficiais romanos e judeus que colaboravam com o Império Romano. Os sicários carregavam sicae, ou pequenas adagas, escondidas nas suas capas, tinham por tática misturarem-se à multidão após o ataque para escapar à detecção, sendo uma das primeiras unidades de assassinato organizadas de capa e punhais conhecidas.

  • Lc. 6.15 – "E Mateus e Tomé, e Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote."
  • At.1.13 – "E, entrando, subiram ao cenáculo, onde habitavam Pedro e Tiago, e João, e André, e Filipe, e Tomé, e Bartolomeu, e Mateus, e Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o Zelote, e Judas, irmão de Tiago."
  • Jo.18.10-11 – O episódio do corte da orelha de Malco também milita para a hipótese de que Pedro fosse originariamente um zelote, uma vez que estes andavam armados procurando ocasião para apunhalar um opressor romano ou um traidor de seu povo..

A presença de Simão, conhecido como o Zelote, no grupo apostólico evidencia a abrangência e o impacto transformador da mensagem de Jesus. O fato de Cristo ter chamado tanto um ex-publicano que colaborava com Roma, Mateus, quanto um ativista nacionalista como Simão, que ideologicamente se opunha ao domínio romano e por consequente a atuação de Mateus como um colaborador de Roma, demonstra que sua proposta ultrapassava as barreiras ideológicas da época.

Esse contraste reforça que o Reino de Deus não se fundamenta em alinhamentos políticos ou em lealdades terrenas, mas propõe uma nova ordem baseada na fé, na reconciliação e na transformação interior. A escolha de discípulos com perfis tão distintos ilustra a natureza inclusiva da mensagem cristã, que não se limita a um grupo específico, mas convida todos a uma renovação de vida independente de sua origem. Esse contraste enfatiza que o Reino de Deus não está atrelado a ideologias terrenas, mas transcende divisões humanas.

Paulo e sua Formação Farisaica

O apóstolo Paulo, antes de sua conversão, era um fariseu devoto e altamente treinado na Lei de Moisés. Ele estudou aos pés de Gamaliel, um dos mestres mais renomados do judaísmo rabínico, o que lhe conferia um profundo conhecimento da Torá e das tradições orais.

  • At.22.3 – "Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas fui criado nesta cidade e instruído aos pés de Gamaliel, segundo o rigor da lei de nossos pais, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós hoje sois."
  • Fp. 3.5-6 – "Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível."

Após sua conversão, Paulo utilizou seu conhecimento farisaico e sua habilidade argumentativa para defender a fé cristã tanto contra os judeus legalistas quanto contra os filósofos pagãos, tornando-se um dos maiores apologetas do cristianismo primitivo.

João Batista e uma Possível Influência Essênia

Embora João Batista não tenha sido um dos doze apóstolos, seu ministério desempenhou um papel essencial na preparação para a vinda de Cristo. Seu estilo de vida austero e sua pregação no deserto sugerem possíveis semelhanças com os essênios, um grupo ascético que vivia em comunidades isoladas e enfatizava pureza ritual e estudo das Escrituras além do total afastamento da contaminação oriunda do domínio romano sobre seu povo e a apatia das elites quanto a esta situação.

  • Lc.1.80 – "E o menino crescia e se fortalecia em espírito; e esteve nos desertos até ao dia em que havia de mostrar-se a Israel."
  • Mt.3.4 – "E este João tinha a sua veste de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre."

Em que pese João Batista não fosse um essênio propriamente dito, seu estilo de vida e seu chamado ao arrependimento (sua mensagem) possuíam paralelos com esse grupo. No entanto, diferentemente dos essênios que, em absoluto, buscavam se afastar do convívio em sociedade, João Batista pregava ativamente ao povo, convidando-os ao batismo de arrependimento e preparava o caminho para Cristo atraindo as multidões ao deserto onde ele vivia, pregava e batizava (Lc.3.1-18).

A Diversidade no Chamado de Jesus

Os discípulos de Jesus provinham de diferentes origens e tinham visões teológicas, sociais e políticas distintas (compreensões acerca da revelação divina e da forma de vivê-la). O fato de Ele ter reunido em seu ministério para o proposito da redenção do homem fariseus (Paulo), publicanos (Mateus), nacionalistas zelotas/sicários (Simão, o Zelote) e pessoas de origens ascéticas (João Batista) demonstra o caráter unificador do evangelho.

Jesus não chamou um grupo homogêneo, mas homens de diferentes contextos para mostrar que a verdade do Reino de Deus não estava limitada a uma única vertente do judaísmo. Em Seu ministério, Ele desafiou tanto os fariseus (Mt.23.13-36) quanto os saduceus (Mt.22.23-33), os escribas (Lc.11.46-52) e até mesmo os herodianos (Mc.12.13-17), ensinando que a verdadeira fé não estava na religiosidade institucional, mas na transformação do coração e na submissão da vontade humana as leis do reino de Deus.

Dessa forma, a gênese do cristianismo foi, desde o princípio, uma resposta apologética às más interpretações da Lei e aos equívocos das seitas judaicas. Jesus corrigiu os erros doutrinários e chamou um grupo plural para anunciar a verdade do evangelho ao mundo.

A Unidade na Diversidade: Um Desafio para a Igreja Contemporânea

O colégio apostólico formado por Jesus era um microcosmo da complexidade humana, composto por homens de origens, pensamentos e ideologias distintas. Esse modelo de diversidade intencionalmente promovido por Cristo aponta para um princípio fundamental do evangelho: a unidade na pluralidade. No entanto, quando olhamos para a realidade da igreja contemporânea, percebemos que esse princípio muitas vezes se perde em meio a divisões, polarizações e disputas.

Hoje, vivemos uma era de fragmentação dentro do próprio corpo de Cristo. Seja por diferenças teológicas, opções litúrgicas ou até mesmo influências políticas, cada grupo, abrindo mão da unidade de proposito apregoada por Cristo, de igual modo também abrindo mão da ortodoxia e ortopraxia e favor de suas idiossincrasias, opiniões pessoais e dureza de coração, procuram formar subgrupos dentro do corpo de Cristo ao invés se submeter “a verdade” (única verdade) apregoada por Cristo para todos os aspectos da vida humana (Jo.14.6).

Muitas comunidades cristãs enfrentam desafios na convivência e no respeito à pluralidade de pensamentos. O mesmo Jesus que reuniu um publicano e um zelote sob o mesmo propósito continua a chamar pessoas de diferentes origens e convicções a fazer parte do Seu Reino. O problema não está na diversidade em si, mas na incapacidade de muitos cristãos de enxergá-la como uma oportunidade de crescimento e edificação mútua, e na Incapacidade de muitos de mão de suas próprias percepções privadas em prol da mensagem de submissão da cruz.

Se a igreja primitiva conseguiu superar tão profunda questão e manter-se firme na missão de proclamar o evangelho, por que a igreja atual muitas vezes se vê refém de divisões e antagonismos? A resposta pode estar na falta de uma visão genuinamente cristocêntrica. Quando Cristo não é o centro, as diferenças deixam de ser complementares e passam a ser obstáculos para a comunhão.

O amor ao próximo é substituído pelo desejo de estar certo, a humildade dá lugar ao orgulho teológico e a missão de pregar o evangelho muitas vezes fica em segundo plano diante das disputas internas. Esquecemo-nos de que a diversidade dentro do corpo de Cristo não é um problema a ser resolvido, mas uma riqueza a ser celebrada, pois é na multiplicidade de dons, perspectivas e experiências que a igreja se fortalece e manifesta, de forma plena, a multiforme graça de Deus.

Diante desse cenário, o desafio para a igreja contemporânea é redescobrir a essência do chamado de Cristo: não se trata de uniformidade, mas de unidade. O evangelho não exige que todos pensem da mesma maneira, mas que todos se submetam ao senhorio de Cristo, acima de qualquer identidade denominacional, ideológica ou cultural. Se Jesus reuniu em um mesmo propósito pescadores, cobradores de impostos, revolucionários e conservadores, a igreja de hoje, em continuidade ao projeto iniciado por Cristo, precisa aprender a dialogar, resolver as diferenças internas, acolher e caminhar unida – não apesar das diferenças, mas por meio delas, demonstrando ao mundo que o amor de Cristo é maior do que qualquer barreira.


"Onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; mas Cristo é tudo em todos."

Colossenses 3.11

Rádio Online

Ouça

Cadastro

Cadastre-se e receba as últimas novidades do Portal AD Alagoas.

Correspondente

Interaja com o Portal AD Alagoas e envie sugestões de matérias, tire suas dúvidas, e faça parte do nosso conteúdo.

participe »
Lições Bíblicas
Estudos Bíblicos
Correspondente - Enviar Matéria

Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Templo Sede
Av. Moreira e Silva, nº 406, Farol

 

Horário de Cultos

Aos Domingos 09:00h - Escola Dominical

Aos Domingos 18:30h - Culto Evangelístico

As Terças-feiras 18:30h - Culto de Doutrina

As Quarta-feiras 10:00h as 17hs - Círculo de Oração

As Sextas-feiras 18:30h - Culto de Oração

Facebook Twitter Instagram
Siga-nos nas Redes Sociais
Utilizamos cookies para coletar dados e melhorar sua experiência, personalizando conteúdos e customizando a publicidade de nossos serviços confira nossa política de privacidade.