Áreas de interesse: Cristologia – Teologia Bíblica – Teologia Pública – Apologética – Exegese do Novo Testamento

INTRODUÇÃO

Sejamos honestos: a nossa tendência natural é buscar caminhos fáceis, e com a fé não é diferente. É extremamente confortável idealizar um Deus que funcione apenas como um porto seguro contra os problemas e crises do dia a dia — alguém focado em aplacar nossa ansiedade, garantir nossa paz e validar nossas escolhas pessoais, resolver nossos problemas financeiros, de saúde, quase que um “assistente pessoal todo poderoso”. No fundo, o que a nossa natureza deseja é um Salvador de plantão e não um Senhor soberano; um cristianismo que alivie as dores imediatas, mas que passe bem longe de confrontar o nosso orgulho ou exigir qualquer tipo de renúncia real.

O problema é que o Jesus real tem uma característica profundamente incômoda: Ele simplesmente se recusa a caber nas nossas caixas de utilitarismo.

Não é de hoje que tentamos domesticar o sagrado. O desejo de moldar a divindade de acordo com os nossos anseios e interesses particulares é um vício antigo, uma herança espiritual que carregamos desde as multidões da Galileia e das estradas de Cesareia de Filipe. Quando olhamos de perto para as Escrituras, percebemos que a época de Jesus as pessoas já viviam essa expectativa e anseio, já buscavam um Jesus “personalizado”, porém, nos evangelhos, percebemos que a teologia pública de Jesus não era de busca palatabilidade (não busca por ser socialmente e  individualmente aceito conforme a nossa medida – politicamente correto), mas sim de confronto com nosso “eu”.

Jesus constantemente confronta esses anseios da multidão e choca os seus ouvintes com uma pergunta perturbadora, que ecoa através dos séculos até alcançar a nossa própria geração: Quem você acha que Eu sou, e o que você realmente espera de Mim?

O Escândalo de Cafarnaum: Do Pão Grátis à Carne Crucificada

Basta uma leitura atenta de João 6 para ver esse choque em câmera lenta. Jesus tinha acabado de realizar um dos seus sinais mais espetaculares: a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo.6.1-15). Cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, comeram até se fartar e ainda houve abundante sobra. A reação daquela multidão foi imediata e extremamente lógica para a mente humana — queriam coroá-lo rei à força(Jo.6.15).

No contexto da Palestina do século I, sob ocupação romana, um líder capaz de multiplicar alimentos representava o perfil exato do herói/messias que as massas pobres e necessitadas da região da Galileia esperavam para libertá-los daquela situação de pobreza e descaso, era também o libertador messiânico que os zelotes aguardavam: alguém que alimentasse o exército da resistência material e animicamente, fosse capaz de inspirar e motivar, e assim conduzisse a derrubada do jugo imperial em sua luta política contra o exército e o império romano.

Mas Jesus foge da coroação e desse ‘lugar comum” lhe proposto pela multidão e seus anseios. Ele percebe que aquela massa de seguidores não estava atrás de Deus, mas de um provedor assistencialista. No dia seguinte, quando o reencontram em Cafarnaum, a conversa muda de tom. Jesus eleva o nível do debate de forma radical e desafiadora. Ele deixa de falar de pães físicos e declara: "Eu sou o pão da vida... quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna."

Jesus até resolve nossos problemas imediatos, uma necessidade momentânea e expectativas individuais, mas essa não é sua missão.

Para o judeu do primeiro século, criado sob o rigor das leis levíticas que proibiam terminantemente o consumo de sangue, aquela linguagem era repulsiva, evocando tabus profundos de profanação. Era um discurso duro demais para se ouvir; o próprio texto grego usa a palavra skleros, que evoca aspereza e rudeza, algo que raspa e incomoda por dentro.

Diante da murmuração e do escândalo daqueles que já se consideravam seus discípulos, Jesus não tenta amaciar o sermão. Não pede desculpas pelo suposto "mal-entendido". Em vez disso, lança o argumento definitivo sobre sua divindade em João 6.61-62 (NVI): "Isso faz vocês tropeçarem? E se virem o Filho do Homem subir para onde estava antes?"

Essa pergunta é o verdadeiro divisor de águas. Com essa pergunta Jesus está confrontando a cultura daquelas pessoas, esta chocando-as ao confrontar os tabus que formavam a cosmovisão deles. O que Jesus está nos revelando é um paradoxo desconcertante: se a Sua humanidade entregue em sacrifício já nos causa escândalo, como reagiremos diante da Sua glória absoluta, que só pode ser alcançada pela mesma via da cruz? Como pode alguém que se pretende ser o messias prometido, o filho de Deus ser exposto a tamanha vergonha e exposição (morte de cruz) e tal exposição ser fator de elevação e glória?

Esse confronto desmonta a nossa busca infantil por um solucionador de problemas temporários – há um propósito maior que nossas necessidades pessoais e maior ainda que nosso “eu acho; eu penso” como deveria ser.

Jesus deixa claro que a Sua missão não é consertar as nossas circunstâncias, mas transformar o nosso próprio ser. Ele não veio apenas para aliviar as nossas dores; Ele veio para reinar. Seguir a Cristo exige fé, entrega radical e aquilo que o apóstolo Paulo mais tarde descreveu de forma cirúrgica: a morte diária do nosso próprio egoísmo, com todas as suas paixões e vontades (Gl.5.24). Seguir o Jesus real dói na carne, mas é o único caminho para a vida eterna.

O Confronto de Cesareia de Filipe: Ortodoxia sem Cruz

Esse padrão de confronto não é exclusividade do Evangelho de João mas sim o modus operandi do ministério didático de Cristo quando entre nós. Em Mateus 16.13-23, encontramos um cenário assustadoramente semelhante na sua dinâmica psicológica. Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" Eles listam as expectativas do público: João Batista, Elias, Jeremias. A cultura da época tentava ler Jesus através de suas próprias lentes políticas e revolucionárias.

Então Jesus personaliza o questionamento: "E vocês, quem dizem que eu sou?" Pedro, num lampejo de inspiração divina, responde de forma brilhante: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." É a ortodoxia perfeita. Uma declaração de fé impecável.

Contudo, repare no que acontece imediatamente a seguir. Quando Jesus começa a revelar a natureza da sua missão — que envolvia sofrimento, rejeição por parte das elites religiosas e morte na cruz —, Pedro o puxa de lado e começa a repreendê-lo: "Deus não permita, Senhor! Isso nunca te acontecerá." A reação de Jesus a Pedro é uma das mais duras de todo o Novo Testamento: "Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens."

Por que uma reação tão severa a alguém que acabara de confessá-lo como o Filho de Deus? Porque Pedro aceitava o Jesus da glória, mas rejeitava o Jesus da cruz. Ele queria um Messias que destruísse o Império Romano, e não um Messias que se deixasse destruir por uma cruz romana. Pedro queria ditar como Jesus deveria salvá-lo — subordinar a missão cósmica de Cristo aos seus interesses nacionalistas e à sua segurança pessoal.

Assim como Pedro, queremos ditar como Jesus deve agir, o que deve considerar prioridade em sua missão, queremos ter as rédeas e dizer “quando e como” Jesus deve agir!

Tanto em João 6 quanto em Mateus 16, o padrão se repete com desconcertante consistência: o ser humano aceita Jesus enquanto Ele realiza milagres e se enquadra nas projeções de poder e conforto. Mas, no momento em que Ele revela que a sua missão exige renúncia, cruz e submissão total, quando entendemos que Jesus não veio para atender meus anseios pessoais, nós murmuramos, nos escandalizamos e tentamos redirecionar os rumos do Evangelho.

A Idolatria do "Jesus Imaginado" na Praça Pública

Se João 6 e Mateus 16 são os espelhos históricos, a teologia pública contemporânea nos oferece três retratos modernos do mesmo padrão. Reconhecê-los é exercício indispensável de honestidade espiritual.

  1. O Jesus da Teologia da Prosperidade é o herdeiro direto da multidão de João 6 — O distribuidor de pães moderno. Sob essa lógica, a fé deixa de ser um meio de comunhão com o Criador e passa a ser uma moeda de troca. O fiel não busca a Cristo por quem Ele é, mas pelo que Ele pode colocar na conta bancária ou na mesa de jantar. Trata-se, na essência, de utilitarismo espiritual com verniz cristão, onde Deus deixa de ser o fim último e passa a ser instrumento para conquistas pessoais. O ser humano se torna o verdadeiro centro do universo — e Deus, seu prestador de serviços.
  2. O Jesus Político e Ideológico é a reedição moderna da expectativa da elite zelote do primeiro século. Para a direita ou para a esquerda, esse Jesus imaginado serve apenas como cabo eleitoral de luxo para validar agendas partidárias preexistentes. Ele é convocado para odiar os mesmos inimigos que nós odiamos e para chancelar os nossos próprios preconceitos sociais. É um Cristo despojado de sua soberania transcendental, rebaixado a um mero carimbador de discursos humanos — incapaz de desafiar quem o invoca.
  3. O Jesus Terapêutico e Sentimental é o favorito da pós-modernidade secularizada (nosso tempo). É um Salvador anestésico, que não faz exigências morais, não fala sobre arrependimento, não confronta o pecado e apenas deseja que você "se sinta bem com quem você é". O sociólogo da religião Christian Smith descreveu com precisão essa versão como o "Deísmo Moral Terapêutico" — uma divindade cuja principal função é fazer o fiel sentir-se bem consigo mesmo, sem exigências reais de transformação. Ou, como Dietrich Bonhoeffer chamaria, é a "graça barata" — absolvição sem arrependimento, batismo sem disciplina, comunhão sem confissão. Um noivado sem o peso da cruz (O Custo do Discipulado, 1937).

Todas essas versões têm algo em comum: são deuses utilitários. São ídolos domésticos que criamos para não termos que nos ajoelhar diante do Senhor real, cujo olhar de fogo e cuja palavra afiada exigem que nos despojemos de tudo para receber a vida que vem somente d'Ele: "Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto." (Jo.12.24, ARA).

Para Quem Iremos Nós?

Quando a verdade dura de João 6 foi proclamada, o texto sagrado relata com dolorosa honestidade que "muitos dos seus discípulos retrocederam e já não andavam com ele." A triagem foi implacável. Diante da debandada geral, Jesus vira-se para os Doze e faz a pergunta que define o destino de qualquer alma: "Vocês também querem ir embora?"

A resposta de Pedro é o nosso único porto seguro no meio dessa tempestade de expectativas frustradas: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna."

Pedro não respondeu porque tinha entendido toda a mecânica de comer a carne e beber o sangue, ou porque achava o caminho da cruz confortável e seguro. Ele respondeu porque reconheceu a identidade absoluta de Cristo. Ele percebeu que, por mais indigesto e chocante que o Jesus real pudesse ser, não há vida fora d'Ele. Fora de Jesus, tudo o que nos resta são ilusões terapêuticas e ídolos de barro que quebram na primeira crise.

Se a nossa expectativa acerca de Jesus é puramente humana, nós nos escandalizaremos com Ele mais cedo ou mais tarde! Se o seguimos apenas pelo que achamos que necessitamos no plano imediato, nossa fé desmoronará na primeira adversidade.

Seguir o Cristo real significa algo muito específico: aceitar que Ele tem autoridade sobre nossa vida financeira, nossas relações, nossa sexualidade, nossa política e nossos sonhos e anseios. Que a Sua agenda não negocia com a nossa. Que ser discípulo não é contrato de benefícios, mas entrega incondicional a um Senhor que morreu, ressuscitou e reina. Isso não é confortável. Mas é a única coisa real.

Quem é Jesus para você? O garçom cósmico que você desenhou para satisfazer seus desejos, ou o Santo de Deus diante de quem você dobra os joelhos, pronto para dizer: Não a minha vontade, mas a tua seja feita"? A resposta a essa pergunta é o que define se somos apenas fãs de ocasião ou discípulos de verdade.

UM CHAMADO À AÇÃO

Se esta pergunta incomoda, não fuja do desconforto — leve-o ao Senhor na oração. Leia João 6 inteiro esta semana. Pergunte honestamente se o Jesus que você tem seguido é o Jesus das Escrituras, ou uma projeção conveniente dos seus próprios anseios. Essa resposta pode mudar tudo.

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REFERÊNCIAS

BONHOEFFER, Dietrich. O Custo do Discipulado. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2004 (original alemão: 1937).

SMITH, Christian; DENTON, Melinda Lundquist. Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers. Oxford: Oxford University Press, 2005.

Todas as citações bíblicas seguem a Nova Versão Internacional (NVI), salvo indicação contrária. Citações marcadas com (ARA) seguem a Almeida Revista e Atualizada.