ÁREAS DE INTERESSE: Cristologia; História do Cristianismo; História das Festas Cristãs; Exegese e Hermenêutica.
INTRODUÇÃO
É fato indiscutível que o surgimento do personagem Jesus de Nazaré na história da humanidade é o seu evento mais relevante, sendo considerado um marco que divide nossa história e nossa organização cronológica entre "antes de Cristo" e "depois de Cristo" (a.C. e d.C.), o ano de seu nascimento em nossa cultura define o ano “zero” de nosso calendário, o verdadeiro marco inicial de nossa era.
Billy Graham, conselheiro de diversos presidentes norte americanos, certa feita, refletindo acerca do grande feito da humanidade em levar o homem a lua, proeza esta do povo estadunidense, disse: "O maior evento da história não foi o homem subindo até Deus, mas Deus descendo até o homem".
Independentemente das religiões, seja na aceitação ou não de Jesus Cristo como Salvador, quer seja ateu ou crédulo, religioso ou Laico, nossa vida cotidiana é marcada por ciclos, festividades, hábitos, costumes, cultura, ética, comportamento e relacionamentos, todos eles intrinsecamente ligados à vida e à obra de Jesus, que tem por marco o seu nascimento na cidade judia de Belém em pleno domínio do império Romano, há cerca de dois mil e vinte e cinco anos atrás.
Para nós os cristãos, muito além das questões seculares, como afirmado pelo apóstolo Paulo aos Gálatas (Gl. 4:4), o nascimento de Jesus representa "a plenitude dos tempos", o evangelista Mateus (Mt.1.23) relata que o seu nome é Emanuel, que significa Deus conosco, um Deus habitando entre nós os humanos, fato este que torna sua data de nascimento evento relevante e deveras significativo, digno de comemoração, por ser a grande dádiva de Deus para a redenção de nossos pecados.
O DIA 25 DE DEZEMBRO E A COMEMORAÇÃO NATALINA
Tradicionalmente, comemoramos sua data natalina no dia 25 de dezembro de cada ano, associando-a aos significados de dádiva, confraternização, valorização dos relacionamentos, renovação de ciclos, caridade e amor ao próximo. No entanto, uma questão se faz latente: será que Jesus realmente nasceu em um 25 de dezembro? Quem apontou tal data em nosso calendário? Será que é realmente relevante para a cristandade saber o exato dia em que Jesus nasceu? E você, caro leitor, já se deparou com esse questionamento?
Embora o Natal seja uma das celebrações mais populares do mundo, a data exata do nascimento de Jesus permanece um mistério, envolto em controvérsias históricas e teológicas. A escolha do dia 25 de dezembro como data natalina é fruto de um processo complexo que envolve elementos religiosos, culturais e políticos, com forte influência do sincretismo religioso dos primeiros séculos da cristandade.
Diversos estudiosos, alguns curiosos e também os "palpiteiros de plantão" têm se dedicado a compreender este tema e chegam a algumas conclusões que nos levam a razoavelmente perceber que não foi em um 25 de dezembro que nosso Redentor nasceu. Vejamos algumas considerações:
Marcelo Craveri, O Nascimento de Jesus: História e Mitologia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. p. 65: "A escolha de 25 de dezembro foi influenciada pela tradição judaica e pelas festas pagãs."
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Thomas Talley, As Origens do Ano Litúrgico . Nova York: Pueblo Publishing, 1986. p. 91: "A escolha de 25 de dezembro foi influenciada pela festa romana de Saturnália."
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Roland H. Bainton, O Nascimento do Cristianismo . São Paulo: Editora Hagnos, 2003. p. 123: "A data de 25 de dezembro foi escolhida para substituir as festas pagãs do solstício."
Polêmicas a parte, algumas das razões para questionar o dia 25 de dezembro como data natalina são embasadas nas evidências e razoabilidade dos fatos assim como narrados nos evangelhos em contraponto às condições geográficas e fáticas. Em 25 de dezembro, na região onde os relatos acerca do nascimento de Jesus ocorreram, é inverno, o que torna inviável que pastores estejam cuidando de ovelhas a céu aberto no campo, como descrito no Evangelho de Lucas (Lc. 2:8-20).
Além disso, não seria uma época favorável para longas viagens nas condições da época, especialmente para uma mulher grávida prestes a dar à luz (Lc. 2:1-5) como era o caso de Maria e assim igualmente inviável a realização de um senso que exigisse longas viagens dos habitantes da terra expondo-os a riscos desnecessários.
BUSCANDO UM CONCENSO RAZOÁVEL PARA A VERDADEIRA DATA DO NATAL
Considerando tais inconsistências em correlação a data proposta em 25 de dezembro, surge a pergunta: seria possível determinar a data real do nascimento de Jesus? A resposta é que, embora não possamos identificar uma data exata, é possível chegar a uma aproximação. Através do relato bíblico em seus detalhes, podemos chegar a uma aproximação bastante razoável para um período estimado acerca do mês em que Jesus nasceu.
Com base nas informações fornecidas por Lucas, encontramos algumas sugestões que nos ajudam a calcular esses dados:
- Lucas 1:5 e 24 – Isabel, mãe de João Batista, engravidou no período em que seu marido Zacarias servia no templo, durante o turno sacerdotal de Abias.
- Lucas 1:26 – Maria ficou grávida no sexto mês da gravidez de Isabel.
Para aproveitar ao máximo tais informações na busca da compreensão acerca do nascimento de Jesus, inicialmente é preciso compreender o que é o "turno de Abias" e como tal informação se correlaciona com o nosso calendário gregoriano. Em 1 Crônicas 24:10, o rei Davi organiza o serviço sacerdotal anual em 24 turnos de 15 dias cada, correspondendo o turno de Abias ao oitavo turno, que, por sua vez, decorria na segunda quinzena do quarto mês do calendário judaico.
Importante se faz a compreensão de que o calendário judaico não é idêntico ao nosso calendário ocidental possuindo algumas peculiaridades, por tanto, uma correspondência direta entre o quarto mês judaico e o nosso mês de abril não é válida. O primeiro mês judaico é Nissan, que corresponde em nosso calendário gregoriano ao período compreendido entre meados de março a meados de abril. Sendo assim, o turno de Zacarias, no qual ele recebe a visita do anjo Gabriel (Lc.1.11) ocorreu na segunda quinzena de Tammuz, correspondente à primeira quinzena do mês de julho em nosso calendário ocidental.