22 de junho de 2018
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Artigos

Pr. Adriano Oliveira
Ministro do Evangelho, Membro da Comissão de Apologética da COMADAL, Professor de Teologia e Filosofia da FAFITEAL, Bacharel em Direito e Filosofia, Mestre em Teologia, Escritor e Palestrante.
25/12/2017

Se Jesus Cristo é Deus, porque Paulo faz clara distinção entre Jesus Cristo e o Pai, mesmo após a glorificação do filho?


Um dos nossos internautas e fiel navegante das águas tranquilas, intelectivas e edificantes do Portal AD Alagoas, nos enviou um e-mail, arguindo-nos acerca da indagação acima e pediu para escrevermos sobre o assunto. Acreditando na Divindade de Cristo, bem como naquilo que defende a teoria da união hipostática, analisamos e vamos responder a tal pergunta.

Bem, primeiramente precisamos levar em conta que na época do apóstolo Paulo, dentro do meio filosófico e religioso, ainda não ocorriam quaisquer influências do Monarquianismo modal. Até porque essa visão herética, oriunda dos ebionitas, defensora da tese que Eloah possuía unidade absoluta (“yachidh”), compartilhando de mesma Natureza e Atributos, manifestando-se de três formas diferenciadas (Pai, Filho e Espírito Santo) não tinha surgido ainda. Ora, se retrocedermos no tempo, perceberemos que esta corrente surge depois dos primeiros duzentos anos após o nascimento de Cristo, mas precisamente em 263 dC.

Somos cientes que, historicamente falando, atuando como bispo na cidade de Esmirna, Noetos foi o pioneiro a acreditar e difundir essa falsa ideia acerca de Deus, inclusive, ele foi literalmente expulso da organização religiosa, tornou-se foragido e se abrigou em Roma, onde fez amizade com alguém que se tornaria seu primeiro e principal discípulo, que logo difundiria esse ensinamento também pela terra de então. Seu nome, Epigonus.  Neste mesmo período, outro personagem como Praxes surgiria e lecionaria para toda a Ásia menor aquilo que Noestos ensinou. Esse herege seria tão perspicaz que passaria despercebido pelo próprio Hipólito. Na realidade, Praxes foi outro discípulo direto de Noestos que começou seu ministério em Cartago e, por várias vezes, foi afrontado diretamente por Tertuliano.

Segundo informações históricas, Praxes era de temperamento ruim, arrogante e bruto, o mesmo surge entre os primeiros hereges na Ásia menor que, de forma bem discreta, carregavam em sua boca o veneno herético e tentava contaminar as igrejas ensinadas por Paulo. É bem verdade que os famosos patripassianistas não tinham surgido ainda, mas acredito que essa ideia de Noetos, acerca do unicismo, já existia e é derivada das próprias teses Aristotélicas e Euclidianas presentes na filosofia grega pagã, ou seja, vem antes do nascimento de Cristo. Se este que vos fala não estiver enganado, isso gira em volta de 300 a.C.

Ao analisarmos a famosa “Teoria da Substância”, à luz da visão monista, tão largamente apreciada pelo Estoicismo, perceberemos que as heréticas ideias unicistas de forma embrionária já existiam desde antes dos ensinamentos do nosso mestre Jesus, quanto mais dos tempos paulinos. Acredito que não está dispensada a hipótese de Paulo ter feito a dita distinção para combater a visão disfarçada ora pelos “antinominianos” ora pelos “filósofos heréticos”, todos discípulos da corrente filosófica metafisica e ontológica, que posteriormente, em meados do século II da era Cristã, se apresentaria como “patripassianista”.

Péssima influência para a igreja aos cuidados do apóstolo Paulo, não acham?

Acreditamos na possibilidade de Paulo, nos textos neo-testamentários apresentados, não querer diminuir a Cristo em relação ao Pai ou a terceira pessoa integrante da trindade. Ao contrário, acredito que ele queria apenas evidenciar o mesmo nível de igualdade entre as pessoas da trindade. Ou seja, reconhecer a divindade de Cristo e defender sua visão trinitariana. Ora, isso é bastante nítido em seus escritos. Assim como próprio Paulo, escrevendo aos crentes da cidade de Corinto (1 Co 12.4-6) registra a presença da Trindade no texto, de maneira igual faz menção na benção apostólica (2 Cor 13. 14).

Já parou para observar a própria comissão em Mateus 28.19, estabelecida por Jesus Cristo?

Precisamos perceber que quando fazemos a exegese deste texto de Mateus, acordamos para o termo que está no singular “eis to onoma” (“em nome”). Por que não está na forma pluralizada?

Vejam: “Portanto, ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”

O que representa o batismo no nome do Pai, Filho e Espírito Santo?

Isso aponta para compromisso, identificação. Mas para nós há uma identificação e um parâmetro de igualdade entre os integrantes da Trindade. Não é novidade que a questão da trindade é algo realmente inferente na Bíblia, mas não deixa de ser real. Evidências como o Batismo de Jesus é evidência inequívoca de tal doutrina (Mt 3.16). Não temos uma filiação Ontológica no episódio diante das águas do Rio Jordão, mas sim funcional onde o nosso bom Deus Jeová apresenta Jesus Cristo como o Seu filho amado que tinha grande prazer. Vemos cada integrante da Trindade, independentemente de essência, participar, de forma harmônica e consensual, de um lindo projeto todos com o intuito de se alcançar um propósito específico.

Ao encarnasse em Jo 1.1-14, não significa dizer que o Senhor Jesus Cristo tenha se tornado inferior a qualquer um dos outros integrantes da Trindade, mas apenas se “subordinou” à vontade de Eloah da mesma maneira que o Espírito de Deus aceitou subordinasse ao ministério de Cristo. Em hipótese alguma coloca hierarquia entre as partes envolvidas nesta relação. Vale, portanto, destacar também que alguns pontos da Cultura Ocidental difere da Cultura Oriental.

Por exemplo, é comum nos povos ocidentais a relação paternal indicar raízes e subordinação do filho para com o seu genitor. Mas quando tratamos da Cultura do Oriente, o costume semítico difere em muito do nosso e a ideia evidenciada é a do Princípio de Igualdade de Natureza. Ou seja, se Cristo é Filho de Deus significa dizer que Ele tem a mesma natureza de Jeová.

Isto é defesa e não ataque a Sua Divindade!

Não cremos que Paulo ao fazer a dita “distinção” em seus escritos, entre Jesus Cristo glorificado e o Pai, o mesmo quis colocar em xeque a Divindade ou Igualdade de Cristo em relação a Jeová ou ao Espírito Santo.

Foi o próprio Paulo quem fez uma solicitação interessante em Tt 2.13: “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”.

Não precisamos fazer uma análise exegética nesta passagem ou dominarmos as regras gramaticais da língua grega para entendermos que o próprio apóstolo apresenta Jesus Cristo como Salvador e Deus. Não só o apóstolo do amor como também os demais autógrafos, ou seja, os “hagiógrafos neo testamentários” frequentemente em seus escritos, utilizavam o termo “Θεός” (“Theós”) se referindo a Javé e normalmente quando usavam o termo “senhor”, derivado do termo hebraico “אֲדֹנָי” (Adho•naí) se referiam ao filho e o termo “πνεῦμα” (“Pneuma”) ao Espírito Santo, dependendo do contexto. Elementar que não podemos mostrar a palavra “Trindade” na Bíblia, mas isso não significa dizer que a Trindade não esteja presente nas Sagradas Escrituras. Da mesma forma nos escritos paulinos de caráter trinitariano. (Efésios 4:4-6).

O próprio texto de Paulo, ao se expressar aos crentes de Filipos (em Fp 2.5-7), tem sido uma das fontes para apoiar a visão monista e ao mesmo tempo sabelianista. Porém, o que os unicistas parecem não entender é que o texto que dá foco a humildade e simplicidade de Cristo é um dos textos de Paulo que mais sustenta a Divindade do Filho de Deus. Basta observar os dois termos gregos presentes no texto: “morphé” (Forma) e “harpagmos” (Usurpação).

Todos que amam a exegese bíblica sabem que o primeiro termo está relacionado etiologicamente a “aparência visível” onde o apóstolo aponta para uma descrição da essencialidade e da natureza estrutural e original de Jesus.  É como se o mesmo quisesse deixar bem nítido aos leitores que essa expressão não está se referindo a algo que venha a mudar, mas sim a algo que por ser genuíno, por mais que se submeta a todo tipo de “maleabilidade ou flexibilidade” não perde sua essência, sua originalidade.

Na realidade, é uma “morphé” que está inteiramente relacionada à identidade e ao “status”. É exatamente o oposto da palavra grega “Schema”, observe no versículo 8, que apesar de traduzida para o português significar “forma”, o sentido desta segunda palavra está relacionada ao sentido de “superficialidade”, “ aparência” ou “esteriótipo”, longe daquilo que é original. Já o substantivo “harpagmos”, que por sua vez significa “roubo”, em todos os escritos, não só paulinos como também neo testamentários, aparece uma única vez nos 27 livros canônicos. Exatamente nesta passagem de Paulo.

Amados internautas, ao aplicarmos o verbo mais próximo a ideia que se tem é do verbo “roubar” ou “tirar a força”. Traduzindo hermeneuticamente, em seu contexto significa que nosso Mestre “não cobiçou”, “não tentou roubar” ou “ser igual a Deus”. Ele não teve a mínima preocupação, pela força ou poder que possuía de interligasse aos atributos exclusivos de igualdade ao Pai ou ao Espírito Santo, mesmo tendo “abdicado” de forma temporária em parte dos mesmos. Ao contrário, utilizou-se da forma assumida para que além de “renunciar” temporariamente em parte de seus atributos divinos para assumir o papel de sacrifício perfeito. É exatamente neste sentido que Paulo se vale do termo “ ao contrário, negou-se a si mesmo”.

Aqui está clara a evidência das duas naturezas de Cristo. E a prova que ele não foi “100% Deus e 100% homem”, mas sim “Verdadeiramente Deus e Verdadeiramente Homem”, independentemente dos valores semânticos presentes na frase. E a sua Onipresença abdicada testifica tal conclusão.

Existem várias evidências deixadas pelo apóstolo do amor que comprovam a Divindade tanto de Cristo quanto do próprio Espírito Santo em pé de igualdade com os atributos exclusivos do Pai. Poderíamos citar outras passagens paulinas descrevendo que independentemente de Paulo fazer distinção entre Jesus Glorificado e o Pai, o Filho é tão divino e igual ao Pai como o Pai o é em relação ao Filho.  Observemos no texto de Cl 2.9, por exemplo, que o termo “pleroma” (Plenitude) é ponto focal quando tratamos de Igualdade entre os dois primeiros integrantes da Trindade.

Se retrocedermos a antiga Tanakh e abrirmos a Bíblia hebraica em textos como os de Sl 24:1; 89.11, entre outros, perceberemos que em todas as vezes que o termo “pleroma” aparece em sua tradução hebraica está relacionada à “totalidade da terra ou mares”.

Quando tratamos de textos neo testamentários, o mesmo termo quando não se referia à quitação total de determinado débito o mesmo era utilizado para fazer alusão a tripulações completas das antigas embarcações comerciais que cruzavam os rios e mares na época de Paulo.

Foi esse mesmo termo “pleroma” (Plenitude) que Paulo se utiliza tanto em Cl 2.9, como também em passagens como Cl 1.19, para evidentemente destacar seu real sentido, ou seja, apresentar a totalidade de todos os atributos de Cristo como Deus. O “logos” divino (Jo 1.1), mesmo na forma encarnada (Jo 1.14), controlou a totalidade de seus atributos divinos sem o mínimo interesse de se utilizar dos mesmo para beneplácito próprio.


Professor Ev. Adriano Oliveira


FONTES BIBLIOGRÁFICAS

W. Grudem, Systematic Theology (Zondervan, 1994)

Louis Berkhof, Systematic Theology (Eerdmans, 1941)

Bill Stringfellow, Tue Red Flag Is Waving (Spencer, TN: Concerned Publications, s/d).

W. Poehlmann, Exegetical Dictionary of the New Testament (Eerdmans, 1981), vol. 2,

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